Brasil, 12 de maio de 2008

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Na pele e na memória - Alegrias e conflitos da primeira tatuagem - (Parte I)

Por Amana Rodrigues

Tudo começou com um sonho. Sonhei que uma índia, em uma noite de lua cheia, me salvava de alguma coisa, mas nem me lembro direito do quê. Ela tinha sempre um lobo ao seu lado e uns olhos azuis de matar.
Eu também nunca vi índia de olho azul, mas que essa tinha, tinha
.”

Esta foi a resposta do estudante João Eduardo,de 21 anos, quando pergutei a razão pela qual ele escolheu o desenho de uma índia de olhos azuis para ser sua primeira tatuagem.

                

E ele ainda completou: “Como ela me protegeu no sonho, resolvi tatuá-la em minhas costas, para que continuasse a me proteger.”

As ocasiões e motivos que levam as pessoas a quererem uma marca exclusiva podem ser os mais variados. Há muitos estudiosos que defendem que o ser humano marca sua pele desde os tempos mais remotos e que a tatuagem é apenas uma evolução natural deste comportamento, há os que acreditam ser uma influencia da moda e do comportamento de grupo, outros afirmam ser uma questão cultural e há muitas outras pessoas, tatuadas inclusive, que sequer têm uma opinião formada a respeito.

Segundo o chileno Boris, o mais antigo tatuador em exercício no Brasil, que também é antropólogo, “a tatuagem está presente desde sempre entre os seres vivos e com a humanidade não é diferente. Em Levítico, na bíblia, já se falava muito de tatuagem e isso data de cinco, seis mil anos atrás”. Ele diz que seria muita pretensão sua arriscar uma explicação exata para as pessoas desejarem começar a se tatuar, mas ensaia uma teoria: -Eu acredito que o ser humano ainda mantenha instintos em seu primitivo tubo neural, que sejam reminiscências dele mesmo enquanto animal e que o faz apelar para o mimetismo.”

E explica:
" Os animais adquirem desenhos geomorfos para se sentirem parte do ambiente, para não ameaçarem e nem serem ameaçados. Os humanos também querem e usam seus símbolos para fazer parte de um todo, para criarem uma unidade de entendimento. Estes símbolos vão para a pele para que o corpo comunique por si só, para dizer que um indivíduo partilha de determinada ideologia, para recordar ou mostrar uma fase, para se embelezar, valorizar sua imagem e dizer, com a pele, sobre um pouco do que há dentro de si. Acho que este desejo se tatuar começa aí, mas a moda, a cultura e comportamento social são outros fatores que também atuam neste desejo.”.

No entanto, o desejo de ter uma tatuagem não é o bastante, é fácil perceber que diversos outros aspectos podem influenciar, e muito, na decisão de uma pessoa de realmente tê-la ou não. A opinião das outras pessoas é um destes vários fatores. A carioca Peçanha conta que resolveu fazer sua primeira tatuagem há uns 12 anos e isso foi uma coisa muito inusitada em sua vida:

:A tatuagem não estava tão na moda como está hoje, mas eu queria algum desenho feminino em meu corpo. Estava tranqüila, pois faria com a tatuadora Zazá, que eu jáa conhecia por ser a mãe de um amigo meu. O que me preocupou mais foram meus pais, mas não tive muito problema depois que eles perceberam que a tatuagem era bonita e muito bem feita.” - Conta Cinthya. Outras histórias como esta não acabam tão bem, há vários casos em que a aceitação só vem depois de muito tempo e muito conflito.

Infelizmente, a visão crítica da sociedade muitas vezes se põe diante de algumas de nossas realizações pessoais e isso acontece com frequência quando é o desejo de ter uma tatuagem que quer se tornar real. Na segunda parte desta matéria, vocês poderão conferir mais depoimentos sobre dinheiro, responsabilidade, carreira e realização, temas diretamente ligados à realização do desejo de tornar mais colorido.

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Regina, 39 anos. Belo horizonte - MG
Minha primeira tatuagem eu fiz há uns três anos, em São Paulo. Um dia eu estava no meu trabalho e de repente, me deu um clique: “Ai, eu quero fazer uma tatuagem”. Fui falar com uma amiga e ela disse que também queria fazer. Neste mesmo dia começamos a procurar alguns tatuadores e no dia seguinte fomos até um estúdio que nos foi indicado, para poder marcar. Passei o dia escolhendo alguma coisa que tivesse significado pra mim. Pensei em tatuar o símbolo OM, já que fazia Ioga; pensei em uma flor, mas não queria uma rosa; então lembrei da flor-de -lótus , que tem um significado super interessante, pois é uma flor que nasce na lama, na obscuridade, significa transmutação, libertação. Naquela mesma noite fomos ao estúdio, levei uma imagem que escolhi na Internet e, depois de algumas adequações saí de lá com a minha tattoo.

Danilo, 28 anos. São Paulo - SP
Desde criança sempre gostei de tatuagem. Quando completei 15 anos, pensei que já era responsável e maduro o suficiente e que não teria problema se eu fizesse uma. Foi nessa época que eu fiz a minha primeira tattoo. Escolhi um desenho simples, que eu achei que daria uma boa cópia. O resultado final atendeu bem às minhas expectativas naquele momento. Fiquei realmente muito feliz, mas com o tempo ela simplesmente começou a sumir. Então resolvi ir a um profissional para fazer uma tatuagem que não sumisse. Escolhi um tema indígena, bem mais elaborado e fiquei muito satisfeito com a cobertura, tão satisfeito quanto fiquei ao terminar de fazer essa mesma que foi coberta, mas agora sei que vai ficar pra sempre.

João Eduardo, 21 anos.
Divinópolis - MG.

Desde os 12 anos eu sempre fui doido por tatuagens e se dependesse dos meus pais eu não faria uma nunca. Felizmente o máximo que me aconteceu foi ter que esperar até os dezoito. A primeira reação da minha família foi olhar com desprezo. Foi um choque para a maioria. Eu nunca tinha dito pra ninguém que tinha vontade de me tatuar e muito menos sobre o tamanho das tatuagens que me agradavam. Minha avó é uma daquelas senhorinhas bem tradicionais e acabou me dizendo horrores. Meu pai também me pagou muito sermão. Algum tempo depois admitiu que era bonita, mas disse que eu deveria parar por aí. Infelizmente, ou melhor, felizmente, não tive como atendê-lo: hoje em dia tenho nove tatuagens e faz apenas três anos que comecei a me tatuar.
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