Brasil, 12 de maio de 2008

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Lister Boris - A História viva da tatuagem brasileira (Parte II)
Por Amana Rodrigues

Na segunda parte da matéria sobre Lister Bóris, o tatuador mais antigo ainda em exercício no país, ele nos conta um pouco sobre o início da tatuagem no Brasil e sua interação com o Lucky Tattoo, o primeiro tatuador a se fixar em nossas terras.

Após atravessar quase toda a América, tatuando e aprendendo tudo o que podia e que havia disponível sobre a tatuagem naquela época, Boris aportou no Brasil no início da década de 70 e em pouco tempo já estava decidido a ficar e se fixar como tatuador.






"Foi em 70 e alguma coisa, 73, 74, nem me lembro direito... Trabalhava então em uma companhia marinha em que era tripulante, baixei em Santos e me encaminhei ao Lucky pra dizer que queria trabalhar como tatuador aqui."

O dinamarques Knud Harald Lykke Gregersen , mais conhecido como Lucky Tattoo, foi o primeiro tatuador a se fixar em terras brasileiras. Desembarcou em 1959 na cidade de Santos, apresentando-se às autoridades como desenhista e pintor.

Na década de 70, a tatuagem começou a quebrar alguns tabus no Brasil e deixar de ser uma arte tão marginalizada, associada apenas aos marinheiros e prostitutas. Pouco a pouco foi chegando à classe média. A esta altura Lucky já tatuava muitos jovens, que exibiam suas tattoos, principalmente na praia, tornando-se muito popular. Foi então que se deu seu primeiro encontro com Lister Bóris.

"Então eu me manifestei, disse que eu queria ficar por aí, que gostava do ambiente e tal. Falei que conheci a Índio´s Tattoo, em Costa Rica, Assurrim no Panamá... Ele foi um pouco grosso na ocasião e disse que não podia ficar em Santos. Depois disso, estivemos distantes porque fui para o Rio."

Lucky seguiu tatuando no porto em Santos e Boris no Rio de Janeiro, estado do qual nunca saiu. Alguns anos depois, Lucky se mudou para Itanhaém, revoltado com tantos assaltados ao seu estabelecimento.

"Houve até uma ocorrência interessante. Algum tempo depois que já estava trabalhando no Rio, parece-me que alguém andou dando uns tiros na loja do Lucky. Era prostíbulo, sabe como é? Então eu soube que ele pensava que tinha sido eu! Fiquei muito sentido, pois não sabia de nada a respeito. Ele veio ao Rio e o Carlinhos Tattoo o levou para me achar em Saquarema. Eu já morava lá, mas ainda tatuava no arpoador com o Caio Tattoo. Ele não me achou, mas como eu sabia que ele estava a minha procura, escrevi para ele dizendo que não tinha nada a ver com o acontecido e ele se tranqüilizou quanto a mim. Como continuaram os acontecimentos na loja, ele se mudou de Santos."

Depois de 5 anos, foi então para Arraial do Cabo, no estado do Rio de Janeiro, onde morreu do coração em 17 de dezembro de 1983, um ano depois da mudança.

"Desde 83 que Lucky já não está mais entre nós. Morreu aos 55 anos e não deixou suas marcas apenas na pele das pessoas. Além disto, deixou um legado a ser continuado, um registro eterno na história da tatuagem brasileira e mundial."

                











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Você e o Lucky se conheceram, trataram de assuntos profissionais e tomaram os caminhos que mais lhes convieram, mas como foi que se aproximaram pessoalmente?

Na carta que eu explicava que não tinha a ver com os acontecimentos em sua loja, também disse que ele viesse morar por aqui no Rio, que saísse de Santos. Ele chegou a vir umas três vezes e eu o acompanhei de volta uma das vezes, também. Não sei como ele se acertou, mas foi parar em Arraial do Cabo. Assim, sempre que podia, eu ia lá no domingo, comia um pouquinho com ele... Ele era muito gentil, havia viajado muito também, conversávamos muito.


E chegaram a se tornar amigos?


Eu considero que sim. Um dia levei a minha família até lá também. Levei meus filhinhos, que agora são adultos. Ele tinha dois cães e um deles mordeu meu filho e machucou, sabe? Deu uma mordida na bundinha dele (risos). Aí ele ficou muito preocupado, muito sentido. Foi então que eu percebi sua personalidade, porque é sob pressão que a gente conhece vê mesmo como são as pessoas, né? Depois disso, que eu vi como ele se sentiu, como ele agiu, aumentou a minha admiração por ele. Não era um culto à personalidade, nada disso. Era sentimento de amizade.

Como aconteceu a morte de Lucky?

Ele teve um problema que era muito comum a tatuadores que se chamava Flebite Estromborsal na perna, por ficar horas na mesma posição sem mexer este membro. Também era hipertenso e tinha problemas coronários. Morreu do coração. Ele não cuidava da saúde. Posso lhe dar uma cópia da certidão de óbito, para que possa comprovar os motivos e a data de seu falecimento.

Hoje em dia, ouve-se falar de muito Lucky, há muitas histórias acerca de sua personalidade. Você conviveu com ele e sabe o que se passou realmente na época. Então, acha que hoje em dia ele é lembrado de uma forma correta pelos seguidores de sua profissão?

Eu o admirava porque ele era viajante assim como eu, um conquistador e era também uma boa pessoa. Era uma amizade sincera, não é como hoje que as pessoas cultuam o nome de Lucky, como se fosse um ser excepcional, mas sem o sentimento da verdade. Eu nem deveria falar estas coisas, mas ninguém sabe sequer onde ele está enterrado! Sabia disto? Seu corpo foi tirado da tumba em que foi sepultado e sua ossada foi mandada à ossada geral e quase ninguém sabe onde ele está agora. Posso te comprovar isso. Sei onde está a ossada geral, junto à qual Lucky está enterrado. O pessoal fala muito disto e eu sei que incomoda muita gente, mas é verdade. Ninguém ia lá limpar a tumba dele, antes dele ser transferido. Eu cheguei a pagar o coveiro lá para limpar, por respeito, né? Tenho muita pena. Acho que ele deveria ter sido tratado com mais reverência, mas infelizmente tem muito pouco tempo que se começou a valorizar a história da tatuagem.



Quais são as iniciativas, em sua opinião, que poderiam ajudar para a retificação, popularização e valorização dessa história?

Um exemplo é o museu da tatuagem. Nós devemos respeitar a iniciativa do Polaco Tattoo, né? Era preciso que as pessoas se conscientizassem e cooperassem mais com o museu na medida do possível. Alguns jovens, que já são grandes artistas, poderiam encontrar no museu um alicerce, uma fonte rica onde se alimentar, para saber a responsabilidade carregam consigo. E está de parabéns quem puder, em vez de criticar, contribuir para que nossa história seja cada vez mais conhecida. Além de museu, vale também a lembrança de que Lucky era um homem normal, que tinha sua família e vivia conforme suas escolhas, como todos nós. Tinham lá seus problemas, mas não compete a mim nem a ninguém fazer nenhum julgamento. Como não podemos julgar também as condições que a tatuagem tinha naquela época, pois era quase sempre muito mal vista. Havia muitas dificuldades, no entanto, essa é a nossa história, e à história não cabem julgamentos, mas respeito e reconhecimento.

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