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Lister Boris nasceu em 1946, em Valparaiso, no Chile,
onde viveu com seus pais (um índio araucano e
uma judia de origem européia) até os três
anos de idade, quando se mudou com sua família
para a Argentina. Aos sete, Boris foi com sua mãe
buscar o leite em pó que ela ganhara e acabou
ganhando um álbum de figurinhas que acompanhava
a lata. Algumas das figurinhas retravam indivíduos
do povo Maori, da Nova Zelândia, com seus complexos
desenhos pelo corpo. O menino foi imediatamente encantado
e, durante anos, ficou pensando como seria possível
inserir um desenho na pele.
Aos 13 anos, Lister consegui fez a descoberta. Em
uma excursão escolar a uma catedral, na Argentina,
distanciou-se de seu grupo e encontrou, nas imediações,
um homem que fazia desenhos da Virgem de Lujan na pele
das pessoas. Boris, então, ficou ali alguns instantes,
vendo como o trabalho era feito. Tempos depois, começou
a fazer suas tatuagens a mão, usando uma agulhinha
de bordar e preparando a tinta com fuligem, um pouco
de álcool e vaselina.
No ano de 1967, pegou sua bicicleta e deu início
a sua viagem pelas três Américas, cujos custos,
ficavam, em parte, por conta das tatuagens que fazia de
forma primária. Descobriu a máquina elétrica
em 1968, no Panamá, onde também conheceu
a Jim´s Suhy Tattoo. Permaneceu no país por
algum tempo, tatuando marinheiros e outras pessoas que
atravessavam o Canal do Panamá e adquirindo experiência,
até que seguiu viagem já com seu próprio
material elétrico.

Depois de passar por diversos países da América
Central, sempre tatuando e nas mais diversas situações,
Boris se instalou em Acapulco, no México. E em
1976, retornou para a América do Sul para se fixar
no Brasil, onde reside e trabalha até os dias de
hoje.

Quando chegou ao Brasil, pelo porto de Santos, foi logo
falar com o Dinamarquês Lucky, o primeiro tatuador
a inserir a arte no país. Ao revelar-lhe sua vontade
de ficar no país para tatuar, Lucky recomendou
a Boris se fixasse em outro lugar, que não em Santos.
Ficou decidodo, então, que iria para o Rio de Janeiro.
No início, chegou a abrir uma pequena loja,
mas foi em uma academia de artes marciais que encontrou
o espaço que precisava. Tatuou muita gente e
foi tendo seu trabalho reconhecido até que sua
arte chegou à televisão: a produção
de Flávio Cavalcanti o convidou para ir a público
defender o seu trabalho. E Boris o fez tão bem
que a repercussão do programa rendeu-lhe outras
matérias em importantes jornais e revistas do
país, sempre falando sobre seu ofício.

Mais tarde, foi convidado a tatuar com Caio Tattoo, no
Arpoador e lá trabalhou cerca de quatorze anos,
até que se mudou para Saquarema. Esta foi localidade
que escolheu para construir seu lar e onde abriu sua própria
loja. |
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Quem era o seu público na época
em que chegou ao Brasil?
Você se lembra? “Menino do Rio... dragão
tatuado no braço...” tinha muito surfista
e continuaram chegando marinheiros, né? Todos
levavam o cartão espalhavam que tinha um bom
trabalho em tal lugar.As pessoas que trabalhavam no
porto também se tatuavam muito, mulheres também...
Mas outros também, como professores, psicólogos
começaram a se tatuar nesta época. Tem
uma edição do Última Hora (jornal)
que um psicólogo dizia justamente isso, que todas
as facções sociais começaram a
ser tatuadas, que o estigma de desvio de comportamento
começou a sair, nesta época. Ele
fez uma matéria depois que se tatuou comigo.
Como é que as pessoas ficavam sabendo,
naquela época, que você era tatuador?
Na época, o tatuador não ganhava tanto
dinheiro pra investir em propaganda, hoje em dia é
diferente. Imagina: se eu fazia uma tatuagem bonita,
quantas pessoas veriam esta tatuagem na praia? Umas
trezentas, quinhentas pessoas, por aí. A maior
divulgação era o bom trabalho do tatuador.
Aí, a pessoa via uma tatuagem e dizia: “eu
quero também” e a outra dizia “vai
lá, em tal lugar”. A gente marcava o horário
e fazia uma atrás de outra. Nesta época,
era o Lucky lá (em Santos) e eu no meu lugar.
Mas também tinha alguma divulgação,
sim. Eu mandava fazer um carimbo, comprava folha branca,
cortava com estilete e carimbava à mão:
BORIS TATTOO. "Ta! Ta! Ta!" Era assim. (risos)

Seu trabalho começou quando a tatuagem
ainda era muito reprimida e marginalizada. A polícia
já chegou a interferir em seu
trabalho?
Sim, já. Em Buenos Aires, por exemplo, a
tatuagem era proibida representar uma senha particular.
A polícia criou uma espécie de lei contra
os tatuadores. Aqui no Brasil, fui preso em 73, aos
28 anos, por estar trabalhando com tatuagem. Havia um
correio perto do Arpoador, no Rio, eu estava lá,
tatuando à mão e a policia me pegou (risos).
Não é bonito de se contar, mas foi assim
que aconteceu (risos). Mas fui solto rapidinho, no outro
dia tava tatuando de novo (risos).
Em 1980, você foi convidado a participar
do programa de Flávio Cavalcanti, um dos ícones
da TV, na época, como isto aconteceu?
Quando fui a Fálvio Cavalcanti em 25 de maio
de 1980, ele disse que eu pensasse bem, pois ele iria
me massacrar. Mas o que ocorreu foi o contrário.
Quando fui ao seu programa, minutos antes de entrar
ele me chamou para conversar e percebeu que meu trabalho
era sério, que eu era uma pessoa direita, que
estava fazendo um trabalho artístico e digno.
Tanto que, durante seu programa, ao contrário
do que havia me dito, ele acabou me defendendo quando
se iniciou uma discussão, com um dermatologista
que também estava no palco. Depois disso, ainda
me lançou na revista Fatos e Fotos. Acabamos
ficando amigos.
Você teve o privilégio de acompanhar
toda a evolução da tatuagem no Brasil,
viu surgir cada novo artista e, provavelmente, percebeu
quando as mulheres começaram, devagar, a investir
na profissão. Como isso aconteceu?
Tem algumas "meninas" aí que se
intitulam como as tatuadoras mais antigas do Brasil,
mas isso não é verdade. A primeira tatuadora
foi a Ana Velho, que já deve estar cinqüentona.
Começou em 76, por aí. Ela tatuava muito
ali na Praça General Osório, no Rio, abriu
uma lojinha em 78 ou 79... Mas hoje em dia ela não
se manifesta mais, sumiu, não sei onde está.
Ela sim é a mais antiga tatuadora deste país,
é uma pena não estar em exercício.
E as tatuagens de sua pele, o que são?
As minhas tatuagens, são imagens muito importantes,
com certeza. São retratos da minha história,
são passagens da minha vida.
Tanta história não caberia em
apenas neste espaço. Confira, na segunda parte
de nossa matéria, um pouco da história
de Lucky, o primeiro tatuador do Brasil, contada com
propriedade e respeito por Lister Boris."Eu
o admimirava porque ele era viajante, assim como eu,
um conquistador.E também porque era uma boa pessoa.
Não era como hoje, que as pessoas cultuam gratuitamente
o nome de Lucky. Eu nem deveria falar estas coisas,
mas é verdade, ninguém nem sabe onde ele
está enterrado." E
venha também viajar pela visão antropológica
de Lister sobre o fenômeno da tatuagem, que é
um assunto muito interessante. Até a proxima!
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