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Brasil, 4 de July de 2009 |
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Lister Boris - A História viva
da tatuagem brasileira (Parte II)
Por Amana Rodrigues
Na segunda parte da matéria sobre Lister Bóris,
o tatuador mais antigo ainda em exercício no país,
ele nos conta um pouco sobre o início da tatuagem no
Brasil e sua interação com o Lucky Tattoo, o primeiro
tatuador a se fixar em nossas terras.
Após atravessar quase toda a América, tatuando
e aprendendo tudo o que podia e que havia disponível
sobre a tatuagem naquela época, Boris aportou no Brasil
no início da década de 70 e em pouco tempo já
estava decidido a ficar e se fixar como tatuador.
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"Foi
em 70 e alguma coisa, 73, 74, nem me lembro direito...
Trabalhava então em uma companhia marinha em
que era tripulante, baixei em Santos e me encaminhei
ao Lucky pra dizer que queria trabalhar como tatuador
aqui."
O dinamarques Knud Harald Lykke Gregersen , mais conhecido
como Lucky Tattoo, foi o primeiro tatuador a se fixar
em terras brasileiras. Desembarcou em 1959 na cidade
de Santos, apresentando-se às autoridades como
desenhista e pintor.
Na década de 70, a tatuagem começou a
quebrar alguns tabus no Brasil e deixar de ser uma arte
tão marginalizada, associada apenas aos marinheiros
e prostitutas. Pouco a pouco foi chegando à classe
média. A esta altura Lucky já tatuava
muitos jovens, que exibiam suas tattoos, principalmente
na praia, tornando-se muito popular. Foi então
que se deu seu primeiro encontro com Lister Bóris.
"Então eu me manifestei, disse
que eu queria ficar por aí, que gostava do ambiente
e tal. Falei que conheci a Índio´s Tattoo,
em Costa Rica, Assurrim no Panamá... Ele foi
um pouco grosso na ocasião e disse que não
podia ficar em Santos. Depois disso, estivemos distantes
porque fui para o Rio."
Lucky seguiu tatuando no porto em Santos e Boris no
Rio de Janeiro, estado do qual nunca saiu. Alguns anos
depois, Lucky se mudou para Itanhaém, revoltado
com tantos assaltados ao seu estabelecimento.
"Houve até uma ocorrência interessante.
Algum tempo depois que já estava trabalhando
no Rio, parece-me que alguém andou dando uns
tiros na loja do Lucky. Era prostíbulo, sabe
como é? Então eu soube que ele pensava
que tinha sido eu! Fiquei muito sentido, pois não
sabia de nada a respeito. Ele veio ao Rio e o Carlinhos
Tattoo o levou para me achar em Saquarema. Eu já
morava lá, mas ainda tatuava no arpoador com
o Caio Tattoo. Ele não me achou, mas como eu
sabia que ele estava a minha procura, escrevi para ele
dizendo que não tinha nada a ver com o acontecido
e ele se tranqüilizou quanto a mim. Como continuaram
os acontecimentos na loja, ele se mudou de Santos."
Depois de 5 anos, foi então para Arraial do Cabo,
no estado do Rio de Janeiro, onde morreu do coração
em 17 de dezembro de 1983, um ano depois da mudança.
"Desde 83 que Lucky já não
está mais entre nós. Morreu aos 55 anos
e não deixou suas marcas apenas na pele das pessoas.
Além disto, deixou um legado a ser continuado,
um registro eterno na história da tatuagem brasileira
e mundial."
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Inicio da página
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Você e o Lucky se
conheceram, trataram de assuntos profissionais e tomaram
os caminhos que mais lhes convieram, mas como foi que
se aproximaram pessoalmente?
Na carta que eu explicava que não tinha a ver
com os acontecimentos em sua loja, também disse
que ele viesse morar por aqui no Rio, que saísse
de Santos. Ele chegou a vir umas três vezes e
eu o acompanhei de volta uma das vezes, também.
Não sei como ele se acertou, mas foi parar em
Arraial do Cabo. Assim, sempre que podia, eu ia lá
no domingo, comia um pouquinho com ele... Ele era muito
gentil, havia viajado muito também, conversávamos
muito.
E chegaram a se tornar amigos?
Eu considero que sim. Um dia levei a minha família
até lá também. Levei meus filhinhos,
que agora são adultos. Ele tinha dois cães
e um deles mordeu meu filho e machucou, sabe? Deu uma
mordida na bundinha dele (risos). Aí ele ficou
muito preocupado, muito sentido. Foi então que
eu percebi sua personalidade, porque é sob pressão
que a gente conhece vê mesmo como são as
pessoas, né? Depois disso, que eu vi como ele
se sentiu, como ele agiu, aumentou a minha admiração
por ele. Não era um culto à personalidade,
nada disso. Era sentimento de amizade.
Como aconteceu a morte de Lucky?
Ele teve um problema que era muito comum a tatuadores
que se chamava Flebite Estromborsal na perna, por ficar
horas na mesma posição sem mexer este
membro. Também era hipertenso e tinha problemas
coronários. Morreu do coração.
Ele não cuidava da saúde. Posso lhe dar
uma cópia da certidão de óbito,
para que possa comprovar os motivos e a data de seu
falecimento.
Hoje em dia, ouve-se falar de muito Lucky, há
muitas histórias acerca de sua personalidade.
Você conviveu com ele e sabe o que se passou realmente
na época. Então, acha que hoje em dia
ele é lembrado de uma forma correta pelos seguidores
de sua profissão?
Eu o admirava porque ele era viajante assim como eu,
um conquistador e era também uma boa pessoa.
Era uma amizade sincera, não é como hoje
que as pessoas cultuam o nome de Lucky, como se fosse
um ser excepcional, mas sem o sentimento da verdade.
Eu nem deveria falar estas coisas, mas ninguém
sabe sequer onde ele está enterrado! Sabia disto?
Seu corpo foi tirado da tumba em que foi sepultado e
sua ossada foi mandada à ossada geral e quase
ninguém sabe onde ele está agora. Posso
te comprovar isso. Sei onde está a ossada geral,
junto à qual Lucky está enterrado. O pessoal
fala muito disto e eu sei que incomoda muita gente,
mas é verdade. Ninguém ia lá limpar
a tumba dele, antes dele ser transferido. Eu cheguei
a pagar o coveiro lá para limpar, por respeito,
né? Tenho muita pena. Acho que ele deveria ter
sido tratado com mais reverência, mas infelizmente
tem muito pouco tempo que se começou a valorizar
a história da tatuagem.
Quais são as iniciativas, em sua opinião,
que poderiam ajudar para a retificação,
popularização e valorização
dessa história?
Um exemplo é o museu da tatuagem. Nós
devemos respeitar a iniciativa do Polaco Tattoo, né?
Era preciso que as pessoas se conscientizassem e cooperassem
mais com o museu na medida do possível. Alguns
jovens, que já são grandes artistas, poderiam
encontrar no museu um alicerce, uma fonte rica onde
se alimentar, para saber a responsabilidade carregam
consigo. E está de parabéns quem puder,
em vez de criticar, contribuir para que nossa história
seja cada vez mais conhecida. Além de museu,
vale também a lembrança de que Lucky era
um homem normal, que tinha sua família e vivia
conforme suas escolhas, como todos nós. Tinham
lá seus problemas, mas não compete a mim
nem a ninguém fazer nenhum julgamento. Como não
podemos julgar também as condições
que a tatuagem tinha naquela época, pois era
quase sempre muito mal vista. Havia muitas dificuldades,
no entanto, essa é a nossa história, e
à história não cabem julgamentos,
mas respeito e reconhecimento.
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