O desaparecimento da tatuagem no Ártico

Por Francine Oliveira Publicado em 2 de outubro de 2013

As tradições da tatuagem no Ártico remontam a mais de 2000 anos atrás. O mar de Bering, na ilha de São Lourenço, Alasca, foi colonizado por antigos povos navegadores asiáticos, que trouxeram consigo novas tecnologias materiais que favoreceram a caça e a adaptação ao ambiente hostil e gélido e possibilitaram a fixação dos povos Okvik e Punuk na ilha. Diante da dificuldade de dominar as forças da natureza naquela região, um sistema complexo da religião animista foi desenvolvido, baseado na crença de que os deuses e espíritos poderiam ser apaziguados com sacrifícios e oferendas. Nesse contexto, a tatuagem se tornou um elemento poderoso, como um escudo protetor indelével e uma forma de sacrifício, por meio da dor, dedicado ao mundo espiritual.



Infelizmente, como é o caso de todas as tradições antigas relacionadas à modificação do corpo, a tatuagem nos povos árticos vem desaparecendo ao longo dos dois últimos séculos, em função de doenças, da ação de missionários e da modernização que estão levando à renúncia de diversos povos a seus costumes antigos.


Entre os yupik, uma etnia que habita a ilha de São Lourenço e a Sibéria, por exemplo, menos de dez indivíduos ainda ostentam tatuagens, todos nascidos na década de 1920. A última tatuadora da vila de Gambell, Alice Yaavgaghsiq, morreu aos 96 anos, em 2002. Sua irmã, a última yupik inteiramente tatuada, Anna Aghtuqaayak, também falecida em 2002, disse, em entrevista ao antropólogo Lars Krutak, que as mulheres da vila faziam as tatuagens para ficarem bonitas e, assim, não se parecerem com os homens. Em 2005, as últimas mulheres yupik tradicionalmente tatuadas também faleceram, Sadie Sepila, aos 96 anos e Mabel Toolie, da vila Savoonga, aos 95.



Dessa forma, é difícil para qualquer pesquisador que queira aprender sobre a arte mágica das tatuagens entre os povos da ilha de São Lourenço, uma vez que não estão disponíveis muitas informações nem registros.


Para se aplicar a tinta, a tatuadora yupik passava uma linha de apoio no buraco de uma agulha feita de ferro ou osso. A ferramenta era então mergulhada em uma mistura de fuligem, urina e grafite. A agulha e a linha eram atravessadas pela pele, um procedimento doloroso que deveria ser feito em várias sessões. O resultado, além da tatuagem, consistia numa pele bastante inchada e, não raro, em infecções que poderiam até causar a morte.


     


Como para muitos povos que habitavam o círculo polar, para os yupik, os corpos vivos são habitados por múltiplas almas, cada alma residindo em uma articulação específica. As almas são responsáveis pelos processos corporais vitais, como respiração, aquecimento, sentimentos, habilidade de pensar e falar. Uma doença seria, então, a perda de uma alma, que estaria habitando a parte do corpo afetada. Dessa forma, um rito de tatuagem funerária era praticado por diversos povos esquimós, chamado nafluq: pequenos pontos eram tatuados em articulações como ombros, cotovelos, quadril, joelhos, tornozelos, pulsos, pescoço e cintura. Realizadas por mulheres (tanto em corpos masculinos como femininos), as tatuagens eram feitas usando uma grande agulha de costura atravessada por um tendão de baleia. O artefato era mergulhado em uma mistura de óleo lubrificante de foca, urina e fuligem, raspada de uma panela. Levantando um pedaço de pele, a tatuadora atravessava a agulha com a "linha" de uma ponta a outra, que deixava dois pontos no local. Acreditava-se que essas tatuagens protegiam quem carregasse o caixão de um ataque espiritual.







Fontes: St. Lawrence Last Tattoos; History of Tattooing in the Arctic


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