Fale um pouco sobre seus primeiros trabalhos artísticos:
No início, ainda na escola, eu me interessava em tudo que era arte, desenho, escultura, pintura, fotografia, mas foi criando logomarcas e charges que ganhei meu primeiro trocado com a arte.
Eu me formei em 1993 na Faculdade da Cidade no Rio de janeiro, em Programação Visual.
Como foi sua vida profissional até começar a tatuar?
Quando terminei a faculdade já trabalhava há muito tempo nas agências de propaganda e isso foi muito bom, pois já estava no mercado de trabalho e com uma grande experiência. Depois fui só evoluindo e acabei trabalhando em grandes agências do mercado brasileiro e internacional, conquistando até prêmios como Diretor de Arte.
O que o levou a se interessar pela tatuagem?
Foi meio inesperado. Estava na cidade de Búzios quando minha namorada, hoje minha esposa, resolveu fazer uma tatuagem com um amigo, também artista plástico, hoje conhecido como George M.
George foi à nossa casa, com todo o equipamento (já que não tinha um estúdio) e foi a primeira vez que tive um contato direto com um profissional dessa área. Folheei cada página das revistas de tatuagens que havia com ele e perdi a conta de quantas perguntas lhe fiz durante o trabalho.
Depois de Búzios, fiz questão que ele fosse à minha casa no Rio, tatuar outras amigas afins e aproveitar para tirar mais dúvidas. George me deu uma grande força para aprender a tatuar e a partir daí, fiquei completamente determinado a isso.
Como foi o processo pelo qual passou até se tornar um tatuador profissional?
Como você foi para as pessoas à sua volta, quando tomou sua decisão de trabalhar com a tatuagem?
Esse é um assunto que me deixa muito feliz, pois tive, sem restrições, incentivo total de minha família, amigos e principalmente de minha esposa. A partir daí, foi a vontade enorme de aprender a técnica e ter uma outra opção de Arte. Acho que naquela época, o meu maior repressor era eu mesmo. Tentava me ver a todo o momento como um tatuador profissional e tinha dúvidas quanto a isso, pois haveria de abdicar de toda uma carreira na publicidade. Mas no fim, estou aqui.
Porque é tão importante, para os iniciantes, a orientação de um profissional na área?
A aplicação de uma tatuagem ou de um piercing é uma coisa muito séria, pois envolve a sua saúde e a de outras pessoas. Ambientes e procedimentos inadequados tornam as doenças, que tem seu contagio através do sangue um risco muito grande para tatuador e cliente. E uma boa orientação de um BOM profissional especializado pode tornar esse tipo de serviço totalmente seguro. Alguns tatuadores ainda preferem ver esse tipo de trabalho apenas como arte. Mas isso vai muito além. A arte está embutida no talento do profissional empregada juntamente com uma técnica repleta de detalhes e cuidados. E essa orientação deve vir não só de um tatuador profissional, mas de outros profissionais nas áreas de saúde e arte. Como é para cursos como Artes plásticas, Odontologia e Medicina.
O caminho é longo e difícil já que não existe ainda uma escola nessa área. Mas é importante que você esteja bem preparado pra oferecer esse tipo de serviço.
Quando se tornou um tatuador, você abandonou sua outra profissão ou mantém as duas em paralelo?
Nunca vou abandonar a Publicidade e a Programação Visual. Estão na veia. Mesmo porque ainda recebo inúmeros pedidos para realizar trabalhos nessa área.
Em que uma profissão influencia na outra?
Em tudo. Quem desenvolveu e desenvolve meus sites e o meu material de divulgação sou eu mesmo. E isso me dá um enorme prazer.
Quais foram as principais diferenças sociais e culturais em relação à tatuagem, que você pôde perceber quando se mudou do Rio de Janeiro para Florianópolis?
Em relação à tatuagem, as duas cidades se parecem muito, tanto na procura como nos estilos. A única diferença que me chama atenção é que em Florianópolis, um grande número de pessoas ainda dá mais valor para o custo do trabalho do que para a qualidade do trabalho e para o ambiente limpo e seguro do estúdio. E isso tem que mudar. Sempre digo que, em escala de importância, a pessoa que quer fazer uma tatuagem ou colocar um piercing primeiro tem que procurar um ambiente seguro e limpo, depois a qualidade do trabalho e por último, o preço.
Você já foi questionado por algum de seus clientes pelo fato de não haver tatuagens em seu corpo?
A todo o momento sou questionado sobre isso. Na verdade, tudo isso começou quando fui procurar estágio em um estúdio. Lá, conheci um tatuador cuja metade do corpo era coberto de tatuagens muito ruins feitas por ele mesmo no início da profissão. Além de eu não ter sido muito bem recebido, ele me disse que a única maneira que eu teria de aprender a tatuar era me tatuando e isso me bateu como um desafio, acho. Hoje, isso surpreende muita gente e, já aconteceram várias vezes, do cliente optar pelo meu trabalho por esse fato específico.
Você vai me perguntar se isso é um bom marketing. Não sei dizer... (mais risos)
O que os outros tatuadores dizem disto?
A maioria dos tatuadores que conheço são amigos e conhecido dos amigos, sempre rola uma gozação sobre essa minha “virgindade”... Mas todos respeitam minha posição e depois, não sou o único, existem outros tatuadores como eu.
Você tem restrição a algum estilo de desenho para tatuar?
Qual é seu estilo favorito de desenho?
Na minha vida profissional me especializei em criar personagens como nos cartoons, como pode ser comprovado no meu site www.marcelosoares.com.br . Mas durante esses anos sempre precisei trabalhar com todos os estilos, pois uma campanha publicitária nunca é igual à outra. E na verdade, acabo por gostar de todos e passei esse gosto pra tattoo.
Você já nos disse que faz sua própria publicidade, quais são as vantagens disto?
Além de criar todos os anúncios e impressos, procuro sempre estar ligado no que existe de bom como veículo de propaganda... E estou sempre em contato com o pessoal da mídia e do comércio local. Você nunca pode deixar de divulgar seu trabalho.
A vantagem é você ter uma resposta rápida e mais controle do que esta funcionando ou não em matéria de divulgação. Mas a melhor propaganda de um Estúdio ou do profissional é o seu trabalho, o famoso “boca a boca”. Uma pequena estrelinha bem contornada vai atrair um enorme dragão. Pode estar certo disso.
Financeiramente falando, a tatuagem é um bom negócio?
Todo empreendimento em que você acreditar e se dedicar vai se tornar um bom negócio. Ainda mais se você amar aquilo que faz, que é o meu caso. Meu estúdio tem apenas um ano e apesar de pouco tempo estou feliz com o resultado até agora.
O bom humor e a irreverência, características marcantes da produção publicitária brasileira e de vários personagens no seu site, são também características da sua personalidade?
Tenho certeza que sim, a arte e as idéias sempre estão relacionadas ao seu criador e isso nunca vai mudar em qualquer lugar do mundo.
Isso influencia seu modo de trabalhar?
Você sempre deve deixar o cliente à vontade e mostrar pra ele que você esta ali para ajudá-lo e orientá-lo da melhor forma possível. E isso inclui também na hora dos procedimentos que pra muitos é uma hora tensa. Então, nada como um pouco de humor e descontração pra quebrar o nervosismo. Muitos de meus clientes se tornaram meus amigos muito por causa disso. Isso sem falar da Lu, minha esposa e sócia, ela segue a mesma filosofia e em matéria de atendimento não existe nada igual a ela.
Arte, trabalho e Internet: Comente um pouco sobre a correlação que possa haver, entre estes assuntos, na sua opinião:
A Internet é a grande invenção depois da televisão. Daqui a algum tempo nenhuma economia sobreviverá sem essa rede. Sem falar nos setores de pesquisa, compra e venda, divulgação etc... É incrível no que ela pode nos ajudar. Um exemplo bom disso foi um cliente que me procurou para tatuar uma ossada de um velociraptor, passei uma semana pesquisando ossadas desse dinossauro em sites sobre geologia e o resultado foi uma ossada estilo tribal que vocês podem conferir aqui mesmo no Portal Tattoo Brasil, nas minhas fotos.
Qual mídia você tem percebido ser a mais eficaz para o anúncio de estúdio de tatuagem, em um grande centro urbano?
Tatuagem na televisão: Quais são os benefícios e/ou malefícios que você percebe na superexposição da tatuagem nesta mídia?
A exposição da tatuagem nessa mídia vem crescendo muito e a televisão é um grande veículo e deve, sim, ser usada para divulgar esse trabalho e seus profissionais, popularizando cada vez mais essa arte. Mas deve-se cuidar para que informações importantes ligadas à saúde também cheguem ao público mostrando o que é um serviço seguro.
Em alguns programas, a tatuagem e o piercing são tratados de uma forma sensacionalista e a qualidade da apresentação fica a desejar, com a falta de informações para as pessoas que os assistem. Como posso tatuar alguém em um auditório se, pelas regras da vigilância sanitária, isso não é o ideal?
É complicado. Alguém já viu uma cirurgia plástica ou um tratamento odontológico em um palco? Os profissionais convidados têm que se preocupar com isso.
Você acha que as pessoas estão sendo influenciadas a se tatuar pelos programas de tv?
Claro que sim. A tatuagem e o piercing, na sociedade moderna, sempre estiveram presentes, mas estavam restritos a um mundo marginalizado e já há algum tempo vem saindo dos guetos e ganhado força em outras classes sociais e principalmente no meio artístico, através dos ídolos que são vistos em novelas, filmes, programas, entrevistas e etc. E como sabemos, a televisão ainda é o maior veículo de massa que existe, alcançando milhões de pessoas, mas discordo quando dizem que esse momento não passa de uma moda passageira. A tatuagem e o piercing estão em franca evolução, tanto profissionalmente como na queda do pré-conceito para esse tipo de adorno. E esse tipo de atitude, como estética ou expressão, veio pra ficar, SIM.
Hoje em, dia você é mais procurado para fazer marcas NAS pessoas ou PARA elas? (rs)
Com certeza NAS pessoas. Agora tenho meu próprio estúdio e com um trabalho sério e de qualidade você acaba se tornando conhecido e atraindo mais pessoas pra aquilo que você mais se dedica.