O que o levou a se interessar por esta arte?
Meu interesse pela tatuagem aconteceu meio por acaso, eu tinha um amigo no bairro onde cresci que havia passado um tempo no exterior e voltou a morar lá. Ele possuía várias tatuagens, umas feitas no método manual e outras com máquina de motorzinho, que era a sensação naquela época. Vi suas tattoos, as achei iradas e, para minha surpresa, ele me disse que seu irmão mais velho era quem o tatuava e me convidou a ir à sua casa alguns dias depois, quando ele ia fazer uma nova tattoo. Nessa época eu já desenhava um pouco e quando vi como eram feitas as tatuagens, pensei, “acho que eu também posso fazer isso”, e algum tempo depois eu mesmo fiz uma máquina de motorzinho e comecei a tatuar alguns amigos.
Quais dificuldades você enfrentou no começo de sua vida como tatuador?
A maior dificuldade que tive no começo foi conseguir material com boa qualidade, já que, na época, as importações eram muito difíceis e não havia quase ninguém vendendo material bom, e, quem tinha, vendia com preço muito alto. Outra dificuldade foi o acesso às técnicas, já que a maioria dos tatuadores não via com bons olhos outras pessoas começando na arte.
Você se recorda qual foi a primeira tatuagem que viu em sua vida?
Como disse as primeiras tattoos que vi de perto foram desse amigo do bairro. Ele tinha várias tattoos, a maioria consideradas grandes para a época.
E o primeiro trabalho realizado, gostou do resultado?
A primeira tattoo foi em um amigo, um desenho simples: flores tradicionais. O resultado foi razoável dentro das condições em que foi feita, já que, no começo, tatuava com máquina de motorzinho, agulhas e tintas inadequadas para tattoo.
O que seus familiares e amigos disseram ou pensaram sobre você quando decidiu seguir esta arte?
Exerce ou já exerceu alguma outra arte além de desenhar e tatuar?
Eu gosto de muitos tipos de arte, e, assim como na tattoo sou autodidata, em outras artes também. Já fiz esculturas em madeira e durepoxi, artesanato em couro, vime, bambu e junco. Mas o que mais me identifico mesmo é com desenhos e pinturas sobre temas relacionados à tattoo. Atualmente tenho pintado alguns quadros a óleo e procuro sempre estar criando algumas séries de desenhos para tattoo.
Em quais estúdios de tatuagens você já trabalhou?
1993 - Skin Art House - Duque de Caxias - Hudson ,Pepeu e Sujo
1994 - Banzai Tattoo House - RJ - Marcos Davies, Wagner Gorni e Hudson
1995 - Hélio Tattoo – RJ - Hélio e Hudson
1996 - Tattoo House – RJ - Edu e Hudson
1997 até 2000 - Sublime Skin Tattoos – RJ - Hudson , Luiz Fonseca e Stefano Mike (Piercing)
2001 - Casa dos Dragões -RJ - Russo, Hudson e Tiel
2003 - Lucky Tattoo Shop – RJ - Hudson, Henrique Mattos, (Tattoo) Rita e Taty
Qual a vantagem de ter trabalhado em vários estúdios diferentes?
Cite as suas participações em convenções e encontros de tatuagens.
1993 - 1º Encontro de Tatuadores e Tatuados do Rio de Janeiro - melhor preto e cinza e melhor colorida
1995 - 1ª Convenção de Tatuagem da América Latina (Curitiba-PARANÁ)
1996 - La Massa- Buenos Aires - Premiado (Melhor Braço)
1996 - 1º Tattoage Festival - Porto Alegre-RS
1997 - 1ª Tattoo Tour -Rio de Janeiro
2001 - 2ª Tattoo Tour -Rio de Janeiro - Jurado
2003 - 3ª Tattoo Tour - Rio de Janeiro - Melhor Oriental
2003 - 2º Fortattoo- Fortaleza - Jurado
2003 - 2 ª Convenção de Goiânia
2004 - 3º Fortattoo- Fortaleza - Melhor série de desenhos
Todas convenções internacionais de São Paulo de 1996 até 2003.
Fale sobre a experiência de trabalhar como jurado em uma convenção de tatuagem.
Já tive algumas experiências como jurado em convenções, mas, na maioria das vezes, fui convidado no dia da competição pela organização, ao saberem que eu não competiria. Acho que deveriam ter critérios para o julgamento, tais como: técnica, dificuldade e textura, e não só olhar e achar bonito ou não, porque é bem provável que o jurado vá dar notas maiores aos trabalhos com estilo que ele goste mais, mas, no geral, a experiência é boa.
Tive a oportunidade de conferir alguns dos seus desenhos, todos com bastante qualidade. Na sua opinião, um bom tatuador tem que ser um bom desenhista, e um bom desenhista necessariamente será um bom tatuador?
Há algum artista famoso, tatuador ou não, que o influenciou durante a sua carreira?
No começo, mesmo à distância, me influenciava por alguns grandes artistas tais como Don Ed Hardy, George Bone, Horiyoshi III, Guy Aitchison, Filip Leu e Timoty Hoyer entre outros. No Brasil admiro o trabalho do Mauricio Theodoro, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, e outros com quem tive a oportunidade de trocar experiências, como Pepeu, Lango Nator, Marcos Ribeiro, Ricardo Passos e Wagner Gorni entre outros. Já na arte em geral, gosto muito de Salvador Dali , H.R Giger, Burne Hogarth e outros mais.
O que te dá mais prazer na arte de tatuar?
A satisfação e a felicidade de um cliente ou amigo após o fim de um trabalho.
Você recomendaria esta profissão, qual seria o perfil de um bom candidato?
Como profissão não indicaria, mas, como expressão artística, sim. Porque acho que a parte profissional está sendo colocada na frente da parte artística e acredito que não deveria ser assim. A profissão deve ser uma conseqüência da arte. Quero dizer que uma pessoa deve tatuar bem o bastante e até ganhar muito dinheiro com isso e não começar a tatuar já perguntando quanto se pode ganhar. Quanto a um bom candidato, alguém que já se expresse artisticamente seja na pintura, escultura, grafite ou qualquer arte pode ter muito mais facilidade de aprender e evoluir.
Com que olhos você vê a crescente exposição da tatuagem na mídia?
Vejo de modo natural, já que tudo hoje em dia está super exposto a mídia, só que prefiro que a mídia seja especializada na arte, ou pelo menos que à respeitem e admirem, mas não é uma coisa que eu goste muito.
O que você diria aos "tatuadores" de rua e aos "tatuadores" que não trabalham com assepsia, higiene e segurança?
Um representante dos tatuadores na política, o que você pensa sobre isto?
Acho que ainda falta muito tempo para isso acontecer, e não vejo muita necessidade. Se o artista trabalhar com ética e dentro da lei dificilmente terá algum tipo de problemas com o governo.
Em algum momento já pensou em parar ou parou de tatuar?
Não, nunca parei nem tive esse tipo de pensamento. Só vou parar de desenhar e tatuar por algum tipo de limitação física.
Como você vê a tatuagem daqui a dez anos?
Como eu via há 10 anos atrás. Há mais ou menos dez anos tive a percepção que a tatuagem, no Brasil, evoluiria como na Europa ou América do Norte, pela grande população que temos aqui. Vi que criar desenhos para tattoo era de grande importância para essa evolução, então comecei a desenvolver séries de desenhos e tentei encontrar um estilo para minhas tattoos. Ao mesmo tempo tentava incentivar outros tatuadores pois isso era importante, pois nós poderíamos fazer a arte crescer no futuro. Acredito que em outros lugares do Brasil muitos tatuadores também fizeram o mesmo e, ao meu ver, foi o que mais mudou nesses anos. Hoje vejo como os tatuadores mais novos dão importância ao desenho e ao estilo diferenciado, talvez isso também tenha feito o "mercado", como alguns dizem, crescer e tomar a proporção que tomou hoje, mesmo que de maneira desordenada. Por outro lado o nível de qualidade das tattoos evoluiu muito e isso significa mais clientes satisfeitos, porque acho que a maioria quer ter uma bela tattoo, e muitos podem pagar bem por isso. Sendo assim, daqui a dez anos, vamos ter um número muito grande de artistas com um alto nível e é possível que a arte cresça como nunca aqui no Brasil. É o que eu espero.
Uma palavra para os futuros tatuados e futuros tatuadores?