Entrevistas


  • Isaac Tocinho

  • Salvador / BA
Isaac Tocinho
Salvador / BA

1. Como a tatuagem surgiu em sua vida?

No tocinho de porco! (risos) Sempre desenhei e um dia um amigo me falou: - Eu conheço o Bingha (tatuador mais antigo da Bahia), você não gostaria de aprender a tatuar? Eu posso falar com ele!

Nessa época estava na faculdade de design e não sabia direito qual meu direcionamento dali em diante, então falei... beleza!
No final nem rolou de tomar umas aulas com Bingha, mas fiquei muito curioso pois não conhecia nada desse mundo da tattoo. Então procurei um estúdio que conhecia aqui e pedi uns toques para um profissional mais experiente. Depois que comecei, JÁ ERA, não consegui mais parar. Nem terminei a faculdade ainda. (risos)

2. Em cinco anos como tatuador, conquistou prêmios em convenções e cria trabalhos realistas de destaque, a que atribiu sua evolução?

Acredito que o desenvolvimento plástico que o mundo moderno proporciona, faz com que a evolução de um tatuador novo seja efetivamente mais rápida que a dos nossos mestres mais antigos. A depender do estudo pessoal, qualquer profissional que esteja engajado no dia-dia da profissão terá todo material didático e ferramental com livre acesso.

Quando comecei a tatuar desenhava basicamente oito horas por dia e desde os seis primeiros meses de trabalho frequento convenções por todo Brasil. Hoje, acho que posso resumir que a evolução de um tatuador vem do acúmulo de referências traduzidas em suas aplicações diárias.

3. Antes de ser tatuador, qual era sua relação com desenho?

Desenho sempre fez parte da minha vida. Não lembro quando fiz meu primeiro desenho. Eu, como a maioria dos nossos colegas era aquele rapazinho do fundo da sala que ficava no intervalo das aulas desenhando e quando tinha trabalho de artes todo mundo queria ser do seu grupo. (risos) Um bom desenho realista é aquele que mantem a estrutura original (proporções e etc...) e ainda deixa notório o estilo do artista. Esse tipo de visão deve ser galgado dia após dia.


4. Lembra-se da primeira celebridade que reproduziu em uma tatuagem?

Posso estar enganado, mas acredito que tenha sido o Malcon X. Foi na convenção do Led`s em 2005.


5. Como é ser tatuador na "Capital da Alegria"?

Nos últimos anos a tatuagem vem sendo inserida na sociedade e perdendo o seu caráter marginal. Isso faz com que a busca por aquela tatuagem tão desejada seja encorajada. Salvador é uma cidade com dois milhões de habitantes e uma cena cultural fantástica. Por mais que a imagem do carnaval seja vendida para todo o Brasil o ano inteiro, só quem vive aqui entende a responsabilidade de carregar o orgulho de ser baiano. Eu amo a Bahia e quem quiser conferir é só aparecer! (risos)

6. A tatuagem baiana está em constante evolução. O que um tatuador deve fazer para se manter atualizado?

Ser tatuador, independente da onde esteja é buscar a melhorar todos os dias. Nosso trabalho está na pele dos nossos clientes para sempre e por isso deve ser levado com a seriedade e a dedicação que isso significa. A Bahia faz parte da história da tatuagem nacional. Essa escola é antiga e hoje começamos a nos mostrar pelo Brasil e pelo mundo.

Com relação a atualizar-se, são várias estradas com uma semelhança... DISCIPLINA! Cada um tem uma maneira de assimilar e traduzir suas referências, porém, o estudo tem que ser frequente e isso exige muita dedicação.

7. Conte-nos um pouco sobre a tatuagem italiana e sua experiência no estúdio Lauro Tattoo.

Com certeza uma grande experiência! Posso focar no ponto artístico mas sem deixar de fora o fato de que toda cultura diferente modifica a maneira como você enxerga as coisas. No final da minha estadia, percebo que a diferença entre a tatuagem italiana e da do Brasil se resume a quantidade. Como o acesso ao material artístico figurativo faz parte da cultura local vê-se uma quantidade menor de profissionais sem informação.

8. Na sua opinião qual o diferencial dos tatuadores brasileiros?

Força de vontade!

Não vejo o talento artístico de maneira nacionalista, mas vivemos em um país onde a arte figurativa não faz parte direta da nossa evolução intelectual. Quando somos crianças e vamos a escola, não recebemos de maneira clara as referências que tornam madura a visão critica da arte. Isso se reflete diretamente no dia-dia do nosso trabalho. Temos que fazer o papel de instruir nossos clientes que normalmente não entendem todas as possibilidades que a tatuagem proporciona. Então, além de termos que estar em constante busca de novas referências, temos que ter um estímulo diferenciado para termos oportunidades de mostrarmos o nosso talento.

9. Bahia Tattoo Convention, como foi enfrentar este desafio?

Realmente um desafio!

A primeira convenção que visitei foi em Goiânia. Lembro claramente quando vi pela primeira vez os trabalhos participantes, os profissionais envolvidos, o público, enfim, os moldes de uma convenção de tatuagem conhecida por todos nós. Naquele dia, percebi que esse tipo de evento traduz de uma maneira muito honesta a cultura da tatuagem para a sociedade e não tínhamos esse tipo de evento na Bahia.

Passaram-se mais dois anos, eu já tinha visitado inúmeros estados e nada na Bahia! Enfim, com todas as dificuldades de uma pessoa completamente inexperiente, mas com muita força de trabalho, realizei no ano de 2006 uma convenção apenas com ajuda de amigos. Nesse evento tivemos dentre os convidados, a presença de Lauro Paolini (Itália) que se identificou com os moldes do evento e me propôs uma sociedade para que abrangece os envolvidos à todo o mundo. No ano seguinte, realizamos a Bahia Tattoo Convention, com a presença de excelentes tatuadores de todo o brasil e diversas partes do mundo.

10. Como analiza o início das convenções de tatuagem na Bahia?

Da maneira mais positiva possível! No nosso meio, a vaidade é muito relevante e uma "competição" pode desfocar o real objetivo de uma convenção, que é mostrar para o público o trabalho da tatuagem em si. Partindo deste princípio a Bahia tem uma grande vantagem por não existir essa tradição de disputa entre vários dos nossos colegas de trabalho, que ainda são novos no meio. Claro que temos nossas desavenças, mas ainda penso que podemos nos direcionar por meandros mais éticos.


11. O que espera de 2009?

Estamos vivendo um momento muito delicado na tatuagem do Brasil. Todos devem ser informados sobre as questões relacionadas ao processo de regulamentação dos materiais. Acredito que organização é muito importante mas autoritarismo e manipulação são instrumentos contrários aos da liberdade. Torço para que nossas autoridades tenham a sapiência de usar esse momento para que haja uma construção real de uma maneira melhor para trabalhar. Por enquanto é só!

Agradeço a oportunidade e muito axé pra vocês!