Entrevistas


  • Rogério Plaça

  • São Bernardo do Campo / SP
Rogério Plaça
São Bernardo do Campo / SP
Por Paulo Duarte

Rogério Plassa completou neste ano de 2008, dez anos como tatuador profissinal. Com diversas participações e premiações em convenções de tatuagem, Plassa destaca-se pela beleza de seus trabalhos e uma vasta coleção de tatuagens biomecânicas criadas exclusivamente para seus clientes. Conheça um pouco mais sobre a história de seu trabalho como tatuador e aerografista.

São dez anos de trabalho como tatuador profissional. Conte-nos como foi a sua experiência com primeira e a última tatuagem realizada até a momento.
A primeira foi um dezastre, sem prática, materiais inadequados, enfim. A última é só a última, vai ficar no passado um dia, mas sempre executo uma tattoo como se fosse a última, e um dia será.
A aerografia também faz parte de sua vida. Como aprendeu esta arte?

Devido à escassez de clientes há 20 anos atrás, saí em busca de algo que suprisse minhas necessidades financeiras. Achei a aerografia. Na verdade, nessa época eu tinha uma recuperadora de autos, que entre outros ser viços, cobria riscos na lataria dos carros com o aerógrafo. Tinha uma geladeira velha no fundo do salão e decidi fazer uma sereia sendo atacada por um dragão, numa tempestade marinha.

A coisa pegou. Fiz um curso de aerografia, mas percebi que tinha mais conhecimento que o professor. Sai, e em busca de um estúdio para trabalhar fui parar na Artmix, onde trabalhei por dez anos pintando para pilotos. Depois voltei a tatuar. Hoje, toda essa bagagem de aerografia eu disponibilizo para quem quiser aprender, nas aulas que temos à disposição em nosso estúdio ou em DVD. São cursos que vão do básico aos níveis mais avançados, onde ensino todas as técnicas e "malandragens" da aerografia automotiva.

Quais as influências do seu trabalho como aerografista em seu trabalho como tatuador?
Devido a aerografia, hoje executo com mais facilidade os trabalhos nos estilos mais variados, e os mais complexos no estilo biomecânico, que exigem conhecimento de perspectiva, profundidade, 3-D, luz e sombra, ponto de fuga, entre outros. A aerografia foi fundamental em minha formação, e a recíproca é verdadeira.

Suas principais influências na tatuagem são principalmente Aaron Cain, Guy Aitchison e H.R. Giger. O que gostaria de dizer a H.R. Giger, mestre dos biomencânicos e arte sombria, caso o encontrasse?

Dizer obrigado, é muito bom ter você entre nós. Dá um autógrafo aí.

Você não fez cursos de desenhos. Quando percebeu que era a hora da começar a tatuar?

O fato de na época não ter feito curso, não era motivo para não começar, fui à luta e "meti as caras". Comecei pela necessidade de sair de uma multinacional, onde trabalhei depois de ter feito o SENAI. Eu nasci artista e não um robô que parafusa, desparafusa, parafusa e desparafusa.

Mauro Nunes, acreditou que era capaz de ser um bom tatuador após o observar trabalhando. Conte-nos um pouco sobre esta passagem.

Montei um estúdio e chamei um tatuador, que hoje tem seu próprio estúdio. Ele era amigo desse tatuador e nos ajudava na loja com o trabalho geral, o Mauro era professor de educação física e estava descontente com o que fazia, foi meio que destino, ele logo começou a dedicar-se e destacou-se rapidamente. Recentemente perguntei a ele, em uma convenção, se foi uma boa trocar a educação física pela tattoo. Adivinha o que ele respondeu?

Seu estúdio abriga alguns estudantes. Como é a sua relação com seus aprendizes?

Conflitante. Porque todo tipo de relacionamento gera emoçõe e ações. Como amigo eu sou um cara cordial e tranquilo, como educador eu sou flexível, mas firme, sei onde eles podem chegar. Daqui sairão nomes que serão conhecidos, como por exemplo o André que manja tudo de mangá e realismo, o Daniel e o Júnior que já tatuam aqui no estúdio e o Tércião.

Dentre seus aprendizes você destaca o Tércio Júnior. Como definiria seu trabalho?

O Tércio é um cara tranquilão, fez o meu curso de aerografia há mais de 8 anos e não parou mais. Destacou-se muito e fez carreira na aerografia, pinta muito e hoje é o professor aqui na R.Plaça Productions. Ele tem um estilo na praia do biomecânico também. Está começando a tatuar, vai ser um nome forte. Eu me preocupo com a carreira dele, pois è um camarada que merece a minha atenção, porque trata-se de um cara do bem e tem talento. Para mim, se o cara é um grande artista, mas não é confiável, não é do bem, então não serve. Por outro lado se é do bem, tem bom caráter, mas não tem talento, é difícil também. Para trabalhar comigo tem que reunir várias qualidades. O Tércião é esse cara.

Como é ser tatuador em São Paulo?
É viver em um ringue. Muita concorrência, "puxação de tapete" e o pior, ter que aguentar os profissionais da região se prostituindo por pouca coisa. Tem tatuador com tradição cobrando merreca para desestabilizar os outros, devido a proliferação de estúdios. Tem outros que de tanto vijarem por aí, ficam sem clientes e quando voltam, ficam "atropelando" clientes dos outros e cobrando preço de padaria. Em compensação tem muito bom exemplo, o Maurício Teodoro é um deles. Admiro muito, não só pela arte dele, mas pelo ser humano que é, a simplicidade, humildade e a trajetória dele impressionam. É meu amigo há uns 20 anos, lembro que quando começei, ele também já fazia uns trabalhos expressivos em Mauá. Hoje, quem neste planeta que é do ramo da tatuagem não conhece o Maurício? É diferente destes caras que recebem um "premiozinho" e já se acham o cara. Tem uns que sobem numa motoca e pensam que são Deus, outros fazem meia dúzia de viagens e percebe-se logo uma falsa modéstia na cara do fulano. Eu prezo aquele camarada que não atropela o caminho do semelhante. Que valor tem você se adiantar atrasando o lado do outro ou sendo arrogante? Tem fulano que passa por você na convenção e nem te cumprimenta, quando na verdade, um dia, você foi uma peça importante na trajetória do cidadão. Por essas e por outras, Tatuar por aqui é uma luta, é em um ringue.
Com algumas premiações e participações em convenções, na sua opinião, o que não pode faltar em uma convenção de tatuagem?

É mais fácil dizer o que falta. Falta transparência quanto aos resultados. Tem muito favorecimento, tem "panela", ou seja, falta gente comprometida com o cenário da tattoo como um todo. Tem um cara que convidou o Maurício Teodoro para participar de uma convenção e ele recusou, disse que não iria por vários motivos. O cara respondeu ao Maurício, dizendo que não gosta de tattoo, abomina esse ambiente de tattoo, mas está nisto por causa da grana. Mas mesmo assim é importante "dar as caras". Acho a convenção do Led's um acontecimento importante.

Filho de peixe, peixinho é! Acredita que será pai de uma tatuadora?

Sim, com toda a certeza. Minha filha é uma aquariana que transpira arte e que já me intimou. "Papai, você me ensina a tatuar?"