Por: Paulo Duarte
Quais foram as mudanças em sua carreira, quando começou a tatuar profissionalmente?Comecei a ter mais credibilidade e responsabilidades, cumprir horários e ser cada vez melhor para atender as expectativas.
Você recebeu três troféus em convenções de tatuagem. O que estas conquistas significam para você?
Significam muito mesmo, porque fico feliz demais em romper tabús e subir no palco representando as mulheres, mostrando que estamos no pário.
Celso Mathias, Jim Warren e pitores antigos são algumas de suas influências. Você já reproduziu em tatuagem alguma obra destes autores?
Sim...de Michelângelo, do Celso ainda quero muito fazer uma em alguém e em mim mesmo..já disse isso a ele mil vezes.
O que gosta de ouvir quando esta desenhando ou tatuando? Ihhh, depende do estado de espírito, mas sempre que coloco um certo CD do Yes que se chama
Fragile, que alguns clientes não suportam, eu fico super empolgada! Led sempre rola, e quando esta na rádio, sempre esta na MPB FM.
Mas é bom lembrar que tudo isso só é possível quando o Negão (Jorge) não coloca aquelas músicas, que chamo de música de academia, que tocam naquelas rádios malditas (risos) ai ai. Aí eu quase tenho um treco...(risos).
Quais foram as influências artísticas de sua família em seu trabalho como tatuadora e música?
Bem, minha mãe é uma artista de imensa sensibilidade. Meu avô, pai dela, era um grande pintor, e adorava pin ups, mas em sua época tudo era mais difícil e ele tinha 5 filhos para criar. Meu avô vendia os quadros lindos dele para um cara assinar, esse cara fez fama em cima da arte de meu avô.
Que merda!!! Ele morreu de desgosto, virou boêmio. Minha mãe, sempre colocou um lápis de cor ou um giz de cera na minha mão, desde pequana. Ela, sempre que eu chegava em casa dizendo que queria algo, ou tinha achado algo bonito, ela perguntava como era e me dizia: Ah, isso é fácil de fazer! Juntas faziamos o que eu queria, incluindo roupas, pinturas e acessórios.
Ela toca violão e canta até hoje. Nos dias de chuva, quando faltava luz, íamos para a varanda de casa tocar e cantar. Sempre me disse que eu era capaz de fazer o que eu quisesse em relação a arte. Aí quando o
Cabelo (meu primo de MG) foi passar uns dias lá em casa, conheci a tattoo em forma de arte. Ele é muito bom mesmo. Me tatuei com 16 anos, em casa mesmo, no meu quarto com minha mãe olhando. Meu pai é arquiteto, mas tambem desenha muito bem e faz de tudo, é bom em tudo que faz.
Você já trabalhou profissionalmente com música e atualmente é integrante das bandas ORDEM~PSICODÉLIKA e WOODSTOCK , como é o seu trabalho com estas bandas? Com a ORDEM~PSICODÉLIKA, é um trabalho autoral meu que tenho desde 2002, com composições minhas e ideologias setentistas de sonoridade psicodélica e de Blues. A WOODSTOCK é um projeto de cover que já existe a muito tempo. Lembro que eu ia aos shows quando era mais nova e achava a banda muito boa. Me chamaram para substituir a cantora que sairia. Tocamos no Circo Voador, Nectar, etc. Mas como é um projeto de cover dos anos 70, só nos juntamos quando tem algo marcado. Atualmente gostaria muito de tocar em uma convenção de tattoo, mas não sei o que acontece com os organizadores que não enxergam que colocar bandas com tatuadores seria uma idéia muito legal. Vários tatuadores tem bandas bem legais e tocam bem. Seria bom dividir o palco com
Serginho( Tattoo Jah) tocando gaita,
André Pessoa ( Max Tattoo ) toca guitarra pra cacete!!! Putz....
Davi ( Muito Além de Tatuagem ) no baixo. Fizemos Villa Lobos juntos e já ganhamos um festival. Na bateria poderia ser ou Timbó
( Muito Além de Tatuagem ) ou
Daniel Novais, pelo que sei tem uma banda no estilo da minha.
Já pensou eu cantando com essa galera?!? Pô, seria bom demais.
Como é tatuar no Rio de Janeiro?No Rio com peles tostadas??? (Risos) É difícil no verão ver passar as suas telas sem proteção na frente da loja, indo a praia. Toda vez que vejo, chamo pra dentro e pergunto: cadê o bloqueador? Esta louca de sair neste sol sem isto? Pode voltar… ah, canso de dar broncas, mas como sou insistente, meus clientes acabam se comportando direitinho e continuam a levar meu trabalho pelas ruas da cidade com a certeza de que estão bonitos… isto que me deixa feliz.
Por quem foi tatuada e por quem gostaria de ser tatuada?Já me tatuei com meu primo
Wellinton (Cabelo) que me inspirou a tatuar, com o Jorge Santana que trabalha comigo e com o Anderson, que tatuou "Saudades". Queria muito me tatuar com o Danylo, mas está difícil (risos), Mordentti, e em breve serei tatuada pelo Alemão, assim espero. Vida de tatuadora não é fácil, pois nunca sobra tempo para nada.
Tem ou já teve algum aprendiz?Nunca. Será que eu seria uma boa professora? Acho que seria rigorosa demais, porque iria querer que meu aluno ficasse melhor que eu e que se dedicasse muito. Sou bem chata, aviso logo. Não é todo mundo que aguenta não rapaz. (risos)
O que gosta e o que não gosta em convenções de tatuagem?Gosto dos encontros com amigos e a troca de informações, a bagunça que fazemos sempre que nos encontramos, o reconhecimento de nosso trabalho, a alegria em ver as pessoas que gosto evoluindo sempre e seguindo pela arte. A idéia de se reunir em prol da tattoo é muito legal. Eu adoro!
Não gosto da falta de organização que as vezes ocorrem, do horário que acaba no último dia, da falta de comida decente e dos babacas, metidos a tatuadores que não se relacionam e se juntam para criticar quem quer trabalhar, perdendo tempo e falando mau dos outros, ao invés de produzirem. Não gosto da pessoas que se sentem superiores, todos temos que aprender, aqui ou em São Paulo, aqui ou em Nova York, aqui ou no Japão, cada um com seu momento e seu tempo.
Como reagiria a um convite para tatuar no exterior? Depende de quem viesse o convite. Só se fosse de alguem que me inspirasse confiança.
A independência de sua família aos 19 anos, influênciou em sua carreira como tatuadora?
Totalmente! Saí de casa sem nada, só com minhas roupas, fui morar com meu ex-namorado (
Rafael Rassan) que é professor de música. Ele me apoiou muito! Na verdade ele me ensinou a ser forte. Passamos muito perrengue juntos. No início não tivemos apoio de ninguém da família, ou seja, contamos só com amigos. Ele, que na época tinha quase 30 aninhos e experiência de uma vida nada fácil, não me deixou cair em momento algum, passamos fome e dificuldades mil. Ele nunca me deixou reclamar da vida, sempre me fez ver o lado bom de tudo. Somos amigos até hoje e ainda dividimos apartamento, foi nele que fiz minhas 3 primeiras tattoos e foi ele que me disse que eu seria uma excelente tatuadora, vê se pode. A tatuagem me tirou do abismo e me deu asas coloridas pra voar por aí, e pernas para andar por onde quisesse.
Qual tatuagem mais estranha já fez?Um coração escrito Carpe Diem, na nádegas de um homendo usando fio dental.
Quais as cantoras, tatuadoras e escritoras que admira? Cantoras, Janis Joplin, Aretha Franklin, Elis Regina, Cássia Eller, Angela Ro Ro, etc.
Tatuadoras, Flávia Vicentim, que me ensinou muito do que sei, ela vem em primeiro lugar sempre, devo a ela tudo que sei de bom de tattoo. Opa, vou dar uma moral para as minhas queridas fofíssimas companheiras de trabalho que estão na batalha e fazem as convenções serem mais iluminadas com talento de verdade: Hélida, Regiane, Camila e Dani.
Escritora, gosto de Cecília Meireles e da louca da Fernanda Young.
Quais os sonhos ainda não realizados?
Bem... Segredo!