Quando se deu seu primeiro contato com a tattoo você já decidiu que era o que desejava seguir como profissão?
Não, mesmo tendo tido contato com a tatuagem e sendo tatuado, eu nunca havia pensado em seguir essa carreira. Tive sempre essa paixão porque a arte não tem fronteiras, ela se expande. A arte, como diria o genial Fernando Pessoa, “A arte, não a história, que é a mestra da vida”. Então a arte, já que não tem fronteiras, tem várias designações, várias formas de se manifestar.
Então quando eu entrei para a faculdade, um amigo falou: “Ronaldo, porque você não começa a fazer tatuagens, você tem facilidade com desenhos, não creio que vã ser dificuldade pra você”. Achei graça daquilo, depois refleti bastante sobre o assunto e comecei.
E essa reflexão durou quanto tempo, entre ter a idéia e pegar a famosa “cobaia”, falar “vem aqui, vamos fazer uma tattoo?”
Bem, eu já visitava um estúdio de um amigo, e isso facilitou a aquisição de material, que, desde o início, sempre foi profissional.
Daí eu comecei a tatuar alguns amigos da faculdade, logo em seguida, mas nunca pensava em tornar disso a minha profissão.
Fiz meu primeiro trabalho em um amigo, não gostei do resultado, e pensei em desistir logo no início. Depois que já estava dominando as técnicas chamei-o e fiz um cover-up.
Essa evolução dos materiais usados para a tatuagem foi fator crucial para que a arte pudesse se desenvolver como um todo, tanto na qualidade dos trabalhos quanto no que se refere às possibilidades de trabalhar a pele com vários estilos de desenhos, com uma riqueza quase infindável de detalhes. A tecnologia caminha lado a lado com a melhoria dos trabalhos. Fale um pouco sobre isso.
Você começou a tatuar já com materiais profissionais, e isso é uma sorte que poucos têm. Hoje em dia temos à nossa disposição muitas informações sobre a tatuagem, como revistas especializadas, sites, e até mesmo algumas reportagens na televisão. Qual a dica que você daria para quem está começando a tatuar?
A dica fundamental que eu daria a todos que estão ingressando nessa área é a persistência, sem se importar com as opiniões indesejáveis de terceiros que, de alguma forma, tentam criar obstáculos pra quem está iniciando. Em se tratando de críticas construtivas eu acho que elas são bem-vindas, dependendo da situação. Além do mais eu recomendaria ao pessoal investir em material de qualidade e, também, na medida em que forem galgando os degraus da arte, irem tatuando cada vez melhor, fazendo o possível e dando tudo de si, se desejar fazer disso sua profissão. Mas tem de gostar muito em primeiro lugar!
Você falou que fez faculdade de Desenho e Artes Plásticas. Chegou a se graduar?
Sim, me graduei em 1996.
Como você fez faculdade de Artes, gostaria de saber quais os artistas clássicos que te influenciaram de alguma forma ou os que têm sua preferência?
Dos artistas considerados os ápices da tatuagem mundial, com quais você faria uma tatuagem e ual estilo seria?
Seria com o japonês Nakano Horioshi, porque ele trabalha de maneira muito singular com o estilo oriental. No estilo realístico em me tatuaria com o Dawei Zang, porque gosto muito da maneira que ele combina efeitos de claro e escuro, luz e sombra. Ele tem, realmente, uma técnica fenomenal.
Fora trabalhar com tatuagens, você tem alguma outra atividade?
Sim, até o ano passado eu lecionei em escolas do ensino médio e fundamental a disciplina de educação artística. Como disse, sempre quis fazer da arte o meu meio de vida. Antes trabalhava com implementos publicitários numa micro-empresa.
Há quanto tempo você trabalha profissionalmente com a tatuagem?
Há exatamente dez anos comecei a tatuar, em 1993.
Em estúdio comecei este ano, no Tattoomaníacos.
Quantas tattoos você tem no corpo?
Em média 11, mas algumas emendam umas com as outras e se transformam em um só desenho.
Fora tatuagens, o que você gosta de fazer quando está com o tempo livre? Qual(is) seu(s) hobby(s)?
Meu curso de língua japonesa, o qual faço mais por diversão, e não por obrigação, já que não há nada que me imponha fazer isso.
Eu sonho em algum dia ir para o Japão, se possível trabalhando com tatuagem, pois tenho um amigo japonês que mora em Tóquio e que trabalha com tattoo.
Fiz também um curso de shudi, que é a técnica de escrever os kanjis com o pincel próprio na técnica japonesa mesmo.
Qual(is) o(s) estilo(s) que você prefere tatuar?
Como você enxerga o cenário da tatuagem em Belo Horizonte hoje em dia?
A tatuagem aqui em BH atualmente está expandindo cada vez mais, como em toda parte. Vários artistas daqui estão se despontando nesse cenário merecendo o devido o reconhecido respeito pelo que fazem, sejam estes trabalhos de qualidade ou não, pois cada artista deixa ali seus limites de capacidade de realizar um trabalho na pele do cliente.
Então acredito que todos merecem respeito, pois se o cliente se identificou com o trabalho daquele profissional, quem somos nós para julgar?
Tem alguma parte do corpo que você não tatua, e qual foi a parte mais exótica que já tatuou?
Nunca tatuei órgãos genitais, pois são regiões de muitas veias e de grande possibilidade de inflamação. Aqui em Belo Horizonte não há muito público que procure esse tipo de tattoo ou até mesmo body piercing.
Qual o estilo de música que você gosta de ouvir quando está tatuando?
Agrada-me muito ouvir um black metal por causa das batidas cadenciadas, e também curto hard-core.
O que você acha das associações e sindicatos de tatuadores que estão surgindo?
Eu encontrei pontos positivos porque leva a uma maior organização da profissão, tornando o ramo mais organizado. A tatuagem não passa mais a ser uma coisa qualquer, uma coisa de aventureiro.