Entrevistas


  • Sérgio Cruz

  • Rio de Janeiro / RJ
Sérgio Cruz
Rio de Janeiro / RJ
Por Gustavo Amaral

Sergio Cruz faz parte da nova geração de tatuadores, com menos de quatro anos como profissional já coleciona premiações importantes. Além de um grande artista, Sergio Cruz é uma pessoa carismática, humilde e em constante evolução. Para Sergio Cruz, estas são palavras importantes para o sucesso profissional.

Alguns tatuadores mais antigos relatam um início difícil em suas carreiras, devido a falta de informações e da precariedade dos materias disponíveis na época. Como foi o seu início como tatuador?

Meu início na arte da tatuagem ocorreu em um perído difícil, quando o Brasil não oferecia muitas oportunidades de emprego, ao menos em minha área, publicidade. Mesmo com uma boa bagagem como artísta gráfico, as agências da época não abriam espaço facilmente. Dois anos se passaram após minha saída de uma grande empresa de mídia e nenhuma porta abriu-se, até que um amigo de infância sabedor de minhas dificuldades, sugeriu-me despretenciosamente que eu iniciasse pesquisas na área da tatuagem. Este amigo residia em Orlando (EUA) e disse-me que por lá as oportunidades eram muitas e que eu tinha talento para desenho por desenhar desde criança.

Resolvi arriscar e passei 30 dias desenhando freneticamente. Finalisei um desenho por dia, totalizando trinta no mês que me dispus a desenhar. Digitalizei e enviei a alguns tatuadores reconhecidos, resultado: não obtive nenhuma resposta! Minha frustação aumentava, até que achei um pequeno papel com um telefone que me levou a recordar de um rápido momento, num bate-papo corriqueiro com um tatuador que conheci numa copiadora. Este tatuador me contou que partiria para "carreira solo" e ali estava fazendo cópias de seus trabalhos para divulgação, termidada a conversa trocamos telefones. Sem muita expectativa, resolvi telefonar e para minha surpresa fui convidado a apresentar-lhe meus desenhos em sua casa. O nome do tatuador éAlexandre Dallier e além de me receber, Dallier analisou meus desenhos e não se importou em ensinar-me sua técnica, em uma época em que também estava aprimorando-se, palavra que nunca deixarei de usar em minha vida artistica. Desde então, comecei a acompanhar seus trabalhos e por vezes passava horas de pé apenas observando e questionando, o que considero muito valioso.

Comprei meu material, já disponível no mercado, bem diferente de antigamente. Aprendi a soldar agulhas, o que considero primordial, pois ao meu ver, alguns trabalhos exigem o "pincel" certo e aí entra o toque do artista no momento de criar seu instrumento. Segui meu caminho, que posteriormente cruzou-se com o de Dallier novamente, pois trabalhamos juntos por um bom período de muita prosperidade.

Em menos de quatro anos como profissional já recebeu o prêmio de melhor tatuagem na categoria tribal, melhor tatuagem moderna na última edição do Tattoo Expo Niterói e terceiro lugar no Concurso Portal Tattoo. Ao que você atribui esta rápida evolução. Gostaria de dedicar os prêmios a alguém?
Atribuo a minha total dedicação a esta arte, e também as pessoas que têm sensibilidade para perceber minha evolução, me apoiando e indicando meu trabalho. Continuo sempre estudando o que de mais novo possa surgir na cultura da Arte, é isto e que faz alavancar nossa trajetória, com muita perseverança e honestidade, sempre. Talvez, por dar sempre o melhor de mim, eu venha a colher bons frutos. Dedico sim, a Deus acima de tudo, ao meu pai que vive comigo e de quem cuido, a minha namorada Patricia que me apoia sempre e a todos os verdadeiros amigos, que de alguma forma estão presentes e acreditam no caminho que sigo.

Quais as influências de sua formação em Publicidade e Propaganda na sua profissão?
Totais, sobretudo quando se trata de dar visibilidade às minhas criações. Busco ilustrar a forma como as pessoas devem e podem ver uma obra de arte, por exemplo. Em tudo na vida existe n eurolingüística e quando se vive num mundo onde a mídia impera, consegue-se dar mais emoção ao que os olhos enxergam, quando estimulam-se todos os outros sentidos também. Isso é a magia da propaganda, é ter-se uma prazerosa lembrança do seu produto quando vê-se algo que agrada. Quando tem-se um trabalho belo e preocupa-se com os acabamentos, certamente chamará a atenção pelos detalhes e assim o estilo fica marcado, seu traço e sua personalidade estimulam outras pessoas que acabam identificando-se e te admirando por este diferencial. Obviamente refiro-me também a qualidade no tratamento e atendimento às pessoas que procuram meu trabalho. São reflexos de minha experiência como publicitário.

Com um nível muito elevado, sabemos que diversos tatuadores brasileiros são reconhecidos no exterior. Você pensa em participar de convenções internacionais ou passar uma temporada no exterior?
Com toda certeza! Devemos levar o nome de nosso país à novos horizontes, mostrando que não devemos nada a ninguém. Particularmente, acredito que além da realização profissional, este intercâmbio que já vem sendo feito há anos por ícones da tatuagem é primordial também para nós, brasileiros. Pretendo sim participar de convenções internacionais e passar uma temporada fora. Já estou em fase de planejamento e aberto à convites (risos).

Cite três tatuadores pelo qual gostaria de ser tatuado e três pessoas que gostaria de tatuar.
Já tenho tatuagens de meu amigo Dallier, mas penso em fazer alguns outros "trabalhinhos", estou na pesquisa da imagem certa. Gostaria ter uma tatuagem de meu amigo tatuador Dionel, pois gosto muito de seu traço e de seu acabamento nos trabalhos, e quem sabe um trabalho de Robert Hernandez, que pra mim e o melhor do tatuador no estilo Realismo. Três pessoas que seria honrado em tatuar são: meu irmão, que foi quem sugeriu minha entrada no mundo da tatuagem e que não vejo a mais de dez anos, pois reside no exterior; e outras duas pessoas que me permitissem realizar um trabalho surreal com muita riqueza de detalhes e sem limitações, permitindo-me assim uma constante superação.

Além de tatuador, você é um ótimo desenhista. Este interesse aconteceu naturalmente, teve alguma influência da família ou frequentou cursos?
Em 1972 desenhava na classe para todos os meus amigos de sala, desde aquele momento já me sentia decidido em trabalhar com arte. Na adolescência fiz cursos de desenho artístico e desenho técnico publicitário. Desde então, desenvolvi uma grande absorção de técnicas e noções. Ao longos dos tempos me firmei como um autodidata sempre pesquisando informações de arte, do passado ao contemporâneo. Repaginar idéias clássicas é um prazer, ou mesmo reproduções como um trabalho de Escher * que me rendeu um prêmio ainda este ano. Tatuar Escher é o tipo de coisa que me move, pois é um trabalho extremamente conectado a história. Não gosto de rótulos, gosto de tatuar de tudo, realismo, cartoons, tribais, old school, new, coloridos, em fim, penso que a arte não deve ter tabus. Sempre tive o apoio de minha família e da minha namorada, graças a Deus.

Quais são as suas princiais influências como tatuador e desenhista?
Como tatuador minhas influências são: Alexandre Dallier, Anil Gupta, Robert Hernandez e Tom Renschaw. Como desenhista gosto muito do Frazzeta e também de pinturas clássicas e renascentistas, como: Rubens, Klint, Michelang
elo, Alfonse Mucha, Escher entre outros grandes nomes.

O que gostaria que mudasse com a regulamentação da Profissão Tatuador?
Na verdade, já ocorrem mudanças comportamentais ao longo destes anos, através da exposicão midiática de pessoas cada vez mais tatuadas ou de celebridades revelando seus ideais através da tatuagem. Algumas mudanças que espero é a nivelação dos profissionais como um todo e maiores espaços na mídia de forma positiva e cultural, não como um show de aberrações, da forma que é apresentada em programas sensacionalistas. Espero que a profissão e a arte sejam vistos em seu real sentido antropológico, com pesquisas das origens, somando-se a beleza das artes que ilustram nossas vidas e nossas peles, pois futuramente, seremos temas de outros assuntos, debates e pesquisas, sobre uma geração que foi marcada pela sua orinalidade e ousadia, marcados pela tatuagem.

Para fechar nossa entrevista, o que diria ao pessoal que esta começando agora, com menos de um ano de estrada por exemplo?
Que sintam, antes de tudo, que a tatuagem deve ser sua pele interior, repleta de história e responsabilidades que devem de ser honradas a cada dia, a cada novo trabalho. Vale lembrar também que respeito e critério nunca devem ser esquecidos. A tatuagem cega alguns, mas também amplia a alma de quem a percebe essencialmente, depois que você encarna sua pele interior... é só seguir em frente!