Você relata que quando mais novo tinha problemas para dormir. Como isso influenciou o início de sua carreira como tatuador?
Muitos tatuadores acreditam que um “mentor”, ou seja, um tatuador com mais experiência é de extrema importância para o aprendizado. Quando você começou, teve esse tipo de ajuda de algum tatuador mais experiente?
Infelizmente não. Naquela época, os tatuadores tinham medo de perder seus clientes para os novos tatuadores que surgiam, o que é uma ignorância na verdade. Quando o cliente é cativo de um tatuador por sua qualidade de trabalho ele não o perde de maneira alguma.
Quais foram as dificuldades que você encontrou quando decidiu abrir as portas do seu próprio studio?
Quando resolvi montar um studio próprio tinha vinte e um anos de idade. Fui trabalhar na sobreloja de uma locadora de games. Fique lá por quinze dias e não fiz tatuagem alguma. Um tio meu, esteve lá para me fazer uma visita e disse que o local era muito escondido e que havia uma loja para alugar, em uma rua movimentada, próxima ao escritório dele. Dirigi-me a esta loja, mas quando respondi a indagação do proprietário de qual finalidade seria a
loja, ele disse que para tatuagem não alugaria. Muito novo, inexperiente e sem noção dos meus direitos, deixei para lá a idéia daquela loja e voltei para minha a sobreloja. Recebi nova visita do mesmo tio e relatei o tinha acontecido. Ele foi embora e minutos depois recebia a visita do proprietário da loja que pretendia alugar, dizendo que se eu ainda quisesse a loja, ela estaria à minha disposição. Perguntei para o dono do imóvel o que o havia feito mudar de idéia, e ele disse que meu tio esteve lá e falou que caso ele não alugasse para mim, não alugaria para mais ninguém, pois iríamos atrás de nossos direitos.
Para você, qual é a importância da realização de eventos e convenções de tatuagem?
O leque de pontos importantes é variado. Troca de idéias, divulgação de trabalhos, entrada de informações de outros países, possibilidade de aquisição de equipamentos que às vezes não temos acesso e a competição saudável que acontece nesses eventos.
Em sua opinião, o Brasil está em um nível alto em termos de convenções ou ainda tem muito que melhorar?
Nós brasileiros, somos de uma criatividade única. Temos alto nível de capacitação em tudo que nos dispomos a fazer. Temos condições de copiar algo e melhorá-lo nos aspectos que precisar, e além disso, somos ímpares na arte de criar. Com relação às convenções, temos profissionais capacitados que evoluem cada vez mais, e com isso não deixamos nada a desejar com relação a profissionais de nenhum outro país.
Como foi experiência em sua primeira convenção de tatuagem?
Nunca havia nem ao menos ido a um evento como esses, então nem sabia do que se tratava. Escolhi um desenho e um modelo e comprei um stand. Então, chegou aos meus ouvidos que alguns tatuadores da cidade onde o evento aconteceria, diziam que eu estaria me precipitando em participar, pois nós do estado do Espírito Santo, não tínhamos condições para estarmos inscritos em um evento de nível internacional. Mas como eu não queria somente ganhar, e sim participar, fui mesmo assim. Quando lá cheguei, não conhecia ninguém e ninguém me conhecia. Não falava com ninguém e ninguém falava comigo (risos). Mas isso foi só no primeiro dia... No segundo dia, já foi uma festa. Comecei a conhecer profissionais muito experientes. Quando estava no meio da tatuagem com a qual competiria, um dos meus maiores ídolos, Sérgio Pizani, aproximou-se e disse: “pode parar, você já ganhou!”. Eu realmente parei naquele dia. Fomos tomar alguma coisa e descansar, e só terminei a tatuagem no outro dia. Eu sabia que poderia ganhar, mas não tinha certeza de que isso aconteceria. Quando fui chamado para receber o prêmio, fiquei sem chão, desesperado e comecei a chorar. Não acreditava que era comigo. Quando subi ao palco para receber o troféu, fiz questão de oferecê-lo aos tatuadores que haviam sido contra minha participação.
Qual foi a relação entre encontrar um novo amor e voltar a competir em eventos?
Depois do primeiro troféu, vieram muitos outros nacionais e internacionais. Já havia provado tudo que tinha de provar a mim mesmo e aos outros, profissionalmente falando. Decidi então parar de competir, por ser muito cansativo e estressante. O tempo passou e eu me apaixonei por uma pessoa adorável e uma mulher incrível e me casei. Levei então minha esposa a uma convenção. Ela viu alguns de nossos amigos recebendo troféus e ficou muito emocionada. Quando voltamos para nossa cidade, ela pediu-me que competisse novamente. Respondi então, que por ela eu iria competir, ganhar e da-la o troféu. Promessa cumprida: ganhei em duas categoria na Convenção Internacional da Tatuagem de São Paulo, uma das mais importantes do país.
Com esses dois prêmios, temos dezenove no total. Acho que agora chega... (risos)
Como você vê a questão do preconceito com a tatuagem nos dias de hoje? Você vê o cenário cultural do Brasil como positivo ou negativo para que a tatuagem cresça e ganhe mais respeito?
Infelizmente, o cenário cultural do Brasil é regido pela televisão. Mas, felizmente, a tatuagem tem estado na mídia a todo instante: nas novelas, nas propagandas, nos famosos e nas revistas. Para que ganhe mais respeito, é necessário mais atitude, tanto de tatuadores quanto de tatuados, impondo-se diante de pessoas e programas que tentam a qualquer custo banalizar a tatuagem. Isso não é só na televisão, e sim em todos os lugares. Tatuadores e tatuados carregam uma bandeira que merece respeito.
Você abriu agora sua segunda loja. Quais são os planos para o futuro?
A segunda loja já tem dois anos e graças à Deus as contas estão em dia. Sempre estudo e faço cursos para aperfeiçoar meus trabalhos e ter condições de manter os clientes satisfeitos. Em breve, estaremos abrindo uma terceira loja.
Qual foi o pior momento que você passou tatuando?
Tatuando nunca tive momentos ruins. Às vezes acontecem momentos ruins na recepção, quando atendemos pessoas que não respeitam as outras, por não terem sido educadas para tanto. Esses pessoas, desrespeitam a profissão de tatuador, que é digna como outra qualquer. Mas seria necessário que as pessoas entendessem que o tatuador precisa estar bem, para que desempenhe seu trabalho com qualidade.
Para terminar, o que faz da profissão tatuador uma profissão diferente de qualquer outra?
É... Realmente é uma profissão diferente. Somos artistas que não podemos ser artistas (risos)... Pois vejam vocês: se um artista não gosta de sua obra, ele simplesmente a descarta, conserta ou joga fora e elabora outra. Se o que nós fazemos der errado, o que faremos ou diremos a nossos clientes? Temos uma responsabilidade tão grande quanto a de um cirurgião plástico.