Alexandre Veríssimo, goiano da cidade de Catalão, é fascinado por tatuagem desde garoto. Venceu todas as dificuldades de sua época e hoje colhe os frutos de seu trabalho. Confiram aqui a trajetória deste profissional, seus obstáculos e suas conquistas.
Ainda aos treze anos você teve seu primeiro contato com a tatuagem. Como foi a sua primeira experiência?
Eu tinha um amigo que tatuava artesanalmente, mas com uma qualidade de quem usava uma máquina profissional. Logo que vi seu trabalho surgiu o meu fascínio pela tatuagem. Eu ficava horas observando como ele fazia com que os desenhos ganhassem vida na pele. Então eu fui ao comércio e voltei com agulhas e tinta Nanquin, me tranquei no banheiro de casa e me tornei minha primeira cobaia.
Qual foi a reação da sua família na época?
A casa veio abaixo quando viram um dragão tatuado em minha perna. Com um pai militar, não foi nada fácil, mas com o tempo tudo se assentou. A partir daí, comecei a desenhar e montar meu próprio álbum de desenhos.
Quais foram as suas maiores dificuldades quando começou a tatuar?
Uma das maiores dificuldades foi o pouco conhecimento sobre o assunto e a dificuldade em adquirir materiais especializados. Hoje em dia tudo é mais fácil de se obter, desde a informação, até a aquisição de materiais em lojas especializadas e com excelente qualidade.
Hoje em dia, há muita informação acerca das doenças que podem ser transmitidas em um estúdio de tatuagem cujos equipamentos, materiais e procedimentos não sejam adequados. Só a veiculação destas informações seria o bastante para conter a contaminação?
A responsabilidade do profissional é primordial nesta questão, pois deve partir dele o interesse de buscar informações para sua própria segurança e de seus clientes. Mas, sem dúvida, os outros veículos de informações também são de extrema importância para o melhor esclarecimento ao público e para o reconhecimento do tatuador como um profissional.
Geralmente é muito valioso para um iniciante ter a orientação de um profissional mais experiente. Porque a observação é tão importante nesta área?
A observação é fundamental, pois é observando que se descobrem os segredos, as habilidades e características de cada artista. O conhecimento que tenho hoje se deve às minhas observações, pois graças às oportunidades que tive de conversar com profissionais e observar eles trabalhando mudei minha forma de trabalhar e venho me atualizando e buscando mais conhecimento a cada dia.
Você chegou a trabalhar em uma agência de publicidade, elaborando a identidade das empresas que solicitavam seus serviços. Hoje em dia, as tatuagens que você produz são as marcas pessoais de seus clientes. Existe alguma semelhança entre as duas profissões?
Com certeza. Na publicidade você tem que criar desenhos que se identificam com a personalidade dos clientes, como se fosse uma identidade, e na tatuagem acontece da mesma forma. Por mais que eu faça o mesmo desenho em várias pessoas, nunca o faço da mesma forma, sempre dou um toque especial para que ela fique personalizada.
Como a aerografia influenciou em seu trabalho como tatuador?
Eu trabalhava no setor gráfico em Brasília e estava no meu horário de almoço quando me deparei com uma tela de golfinhos feita em aerografia. Fiquei fascinado. A mistura de tintas e a seqüência da aplicação das cores me encantaram tanto que hoje utilizo as técnicas de aerografia nas minhas tatuagens e isto me traz um diferencial.
Aos dezoito anos, você se destacou tanto em seu curso de artes gráficas que foi convidado a substituir seu professor. Poderia ter sido um grande profissional desta área, se seguisse a carreira. O que o fez optar ela tatuagem?
Quando se é jovem, se tem sede de diversidade e de conhecimento. Eu fui tentando, de diferentes maneiras, a me encontrar na arte. Optei por tatuar, por que uma vez que você tem contato, você não consegue mais ficar sem, mas também porque viver de pinturas em telas, hoje em dia, é quase impossível.
No ano de 2000, você participou de um concurso em comemoração aos 500 anos do Brasil, realizado pelo Ministério da Marinha, onde foi prestigiado com o primeiro lugar dentre vários artistas. Como foi isto?
Essa foi a melhor sensação que já senti, depois do nascimento da minha filha. É indescritível você ver seu trabalho ser reconhecido depois de tanto esforço e dedicação.
Abrir um estúdio de tatuagem, hoje em dia, é como abrir uma outra empresa qualquer, além, é claro das exigências feitas pela vigilância sanitária. Como é administração de um estúdio?
Abrir um estúdio requer muita responsabilidade e perseverança, pois além de ter que atender todos os requisitos exigidos pela vigilância sanitária,numa cidade do interior tem que se conquistar a aceitação do público, transmitindo segurança e confiança.
Qual é a importância das convenções de tatuagem? Na sua opinião, os tatuadores têm realmente interagido e aproveitado esta interação em seu trabalho, nestes encontros?
Todo e qualquer encontro de profissionais é de muita importância, pois existe a troca de informações e a integração entre os artistas. Sempre se traz algo na bagagem que poderá acrescentar na vida profissional.
Em 2004, você se sentiu discriminado em uma convenção em Goiânia por ser do interior. Este preconceito ainda existe entre os tatuadores?
Acredito que sim. Tem pessoas que se esquecem da onde vieram e quem foram no passado. Uns acham que só possuem conhecimentos, aqueles que vivem nas grandes cidades. Aprendi que na vida que somos todos iguais e quando você acha que é o melhor, sempre tem um melhor que você ou algo a mais pra se aprender.
No ano seguinte, nesta mesma convenção, você levou o primeiro lugar no concurso em três categorias: Realismo, Portrait e Colorido. Como foi isto pra você?
A emoção tomou conta, foi muito especial, pois tive a mesma sensação de quando fui premiado com o quadro dos 500 anos. Só me veio à cabeça flashs de tudo que tive que passar para chegar até ali.