Horiyoshi III

Japão Em 28 de agosto 2013 Por Francine Oliveira

Horiyoshi III é uma lenda viva. Já produziu 11 livros com sua arte e fundou o Museu de Tatuagem de Yokohama, fundado em 2000 e gerenciado por sua esposa, Mayumi Nakano, onde exibe artigos relacionados à tatuagem que foi colecionando ao longo dos anos.


Seu nome verdadeiro é Yoshihito Nakano e ele chegou a ser membro da yakuza quando jovem, antes de se tornar aprendiz de tatuador.


Por mais de 40 anos ele vem trabalhando para trazer a irezumi do submundo japonês para um lugar de maior exposição. Foi um dos seus modernizadores nos anos 80, revolucionando o mundo da tatuagem por meio da introdução da máquina elétrica feita a mão, após conhecer o tatuador americano Don Ed Hardy, aprendiz de Sailor Jerry. Com 66 anos, ele é um dos mestres tatuadores mais procurados do Japão e muitos viajam por horas para conseguir uma sessão com o sensei.

*Entrevista originalmente publicada na revista Skin Deep #151, outubro de 2007



Como foi o seu primeiro contato com a tatuagem?

Quando eu tinha 11 anos de idade eu vi, pela primeira vez, uma tatuagem de corpo inteiro (ou um corpo inteiro tatuado), do pescoço aos pés, em uma casa de banho pública, uma sento. Foi um choque cultural. Eu fiquei tão impressionado! Era como ter um tipo de Godzilla na minha frente. De qualquer forma, eu achei muito bonito e comecei a pensar sobre isso. 10 anos depois, eu comecei a tatuar não profissionalmente.



Naquela época era difícil se tornar um tatuador?

Não era um caminho fácil, isso é certo. Mas eu devo dizer, e isso é verdade para tudo, que o mais difícil é fazer algo de que você não gosta. Até para o cliente. Fazer tatuagem é doloroso, caro e leva muito tempo. Mas o amor que emana de todos harmoniza o processo.



Você estudou sob a autoridade de Shodai Horiyoshi. Como você entrou em contato com ele?

Aos 21 anos eu enviei cartas para tatuadores que havia selecionado, pedindo para ser um discípulo. Nunca recebi resposta alguma. Nem de Horiyoshi nem de Horiyoshi II, seu filho. Mais tarde, ainda sem notícias deles, eu decidi bater direto na porta do estúdio de Horiyoshi II. Eu expliquei a ele minhas motivações e ele finalmente concordou. Naquela época, Horiyoshi II estava sendo tatuado e eu tomei parte nisso. Depois, ele trabalhou em mim também, bem como Horiyoshi e outros discípulos.



Você foi um dos primeiros a usar ambos o tebori e a máquina. Por quê?

Eu descobri a máquina em 1985, e instantaneamente percebi sua eficiência em determinados aspectos. Era impossível desistir totalmente da técnica tebori porque a usei desde o início da minha carreira e é dela que a irezumi vem. Eu acho que é importante manter seu pensamento na ideia de que cada trabalho foi, no início, feito a mão.



Você se considera um artista ou um artesão?

Eu não gosto de tatuadores que se consideram "artistas da tatuagem". Eu sou um artesão. Se algumas pessoas consideram isso como arte, por que não? A arte pode estar em qualquer lugar e em qualquer coisa, é só uma questão de ponto de vista. Mas, para mim, não é [arte]. Uma tatuagem não é algo ruim em si, mas também não é algo bom.


Cada família trabalha com sua própria interpretação. Qual seria a sua?

Onde começa a tradição e onde ela termina? Eu acho que é algo que nunca para e termina. É algo que atravessa o tempo com velhas raízes, mas que também muda sob a influência das coisas modernas. A tatuagem japonesa moderna tomou forma na era Meiji [de 1868 a 1912], ela mesma um passo adiante da era Edo [de 1603 a 1868], que também remonta ao passado. Não há a ideia de tradição como algo "velho", com a obrigação de trabalhar de uma certa maneira, com as mesmas ferramentas... Se eu fosse comparar, diria que é como uma cobra que muda sua pele de tempos em tempos. Podemos dizer que minhas tatuagens são da era Shôwa (que começou em 1926, quando Hiro-Hito se tornou o novo emperador, e termina com sua morte, em 1989).



Então, como é a irezumi da era Heisei (desde 1989)?

É uma mistura entre a tatuagem europeia e americana. Está em grande processo de desenvolvimento. A tradição é, para mim, algo que se apega a tempos antigos. A tatuagem não vai pelo mesmo caminho. Como o teatro Kabuki ou o Nô, que são da cultura japonesa, mas que às vezes se encontram com elementos estrangeiros que levam à criação de uma nova cultura, mesmo que não seja estritamente uma cultura exclusivamente japonesa.



O boom na tatuagem mudou o perfil de seus clientes?

Muito poucas pessoas jovens vêm ao meu estúdio porque eles não sabem a respeito da cultura tradicional. De qualquer forma, eles estão interessados em tatuagens. Mas a maioria é influenciada por estrelas do esporte, ícones da música... É um mundo bem diferente daquele em que eu vivo, automaticamente afiliado aos yakuzas. Claro, alguns desses jovens terão vontade de se tornar foras-da-lei. A tatuagem ainda é muito e profundamente estigmatizada na sociedade japonesa, proibida em casas de banho públicas, onsens [piscinas termais], às vezes até em restaurantes.



Quais as motivações de seus clientes?

Alguns deles escolhem a tatuagem porque estão cientes da história por trás dela. A maioria escolhe pelo desenho. É uma responsabilidade do tatuador saber a história do desenho. Por exemplo, a simbologia das flores está relacionada às estações. Se você não representa o estágio, a tatuagem não significa nada. É muito importante ter em mente que as coisas devem obedecer uma ordem. O tatuador deve conhecer o corpo de seu cliente e achar uma forma de balancear. O pescoço é o céu, as costas são a terra e os pés são a água. Aí o corpo, em função dessas áreas, deve lhe dizer algo.



Qual a essência da tatuagem japonesa?

O mais importante a se lembrar é da yakusoku, a promessa. O respeito a esse compromisso deve unir o tatuador e o cliente até o fim do processo.



Seu filho, com 22 anos [a entrevista foi feita em 2007], deve seguir seus passos. Como você o prepara?

O melhor seria que ele continuasse com o que fiz. Mas ele decidirá por si mesmo qual será o melhor caminho para ele. Claro, eu tento guiá-lo, mas eu o deixarei livre para fazer suas próprias escolhas. De qualquer maneira, o pai tem a responsabilidade de educar seus filhos e meu dever é ensiná-lo a tatuar.

Você está agora com 60 anos [em 2007], você pensa em se aposentar?

Não. Primeiro porque eu tenho tantos clientes ao redor do mundo que não posso parar assim. Depois, não é economicamente possível, eu preciso trabalhar. Claro que é uma pergunta capciosa, mas eu diria que, como em qualquer profissão, é difícil parar completamente. É a vida.


Fontes: Big Tattoo Planet; Inked Mag; Tattoo Artist Magazine.




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